Cartas e hipérboles, Repetição é um recurso de linguagem que eu adoro

Ligação

Amanhã vou te ligar para contar que quase te esqueci. Eu vou ligar falante, feliz  — bem como sou — dizendo que agora eu rio contando as minhas próprias costelas de frente para o espelho. Eu corri tanto que moro nesse corpo magro que você nunca tocou. Corri do espaço vazio que você deixou. Que seja.

Vou me gabar porque já cozinho razoavelmente bem e troco chuveiros e faço compras. Eu já arrisco umas frases em francês, porque precisei de outro idioma para as coisas que não pude dizer. Vou fazer você me ouvir. Parlant.

Vou dizer que ainda não te esqueci por completo e que o som da sua voz ainda me dói e faz minha carne tremer (não sei um jeito bonito de dizer isso, por ora), mas me agarro na certeza de que vai ser de repente. Vai ser num desses dias de folga, em que danço só de calcinha pela casa e aí, eu simplesmente não vou lembrar. Ou num domingo caminhando pela Paulista, olhando os livros expostos na calçada, cantando Caetano com o Bolero Freak — aos berros. Eu não vou lembrar. Nem do seu cheiro, nem de como as suas mãos grandes sobre as minhas me fizeram sentir segura e nem de como o som do seu riso deixava meu coração quente.

Vai ser num desses dias de fazer mercado, olhando as prateleiras, passando por qualquer uma coisa das quais você gosta(va) de comer e eu não vou lembrar. Ou na fila do banco. Vai ser quando o seu nome não significar mais nada e quase ninguém vai se chamar você, ou quando eu terminar esse rascunho. Vai ser quando eu me formar e não quiser te contar, nem ouvir suas felicitações. Quando eu não quiser dividir nada com você, nem medos, nem conquistas. Você não pode mais se orgulhar de mim (isso desde já, antes de eu te esquecer todo). Quando algo ruim acontecer e o seu número não for o contato de emergência. Bem, você não estará mais nos meus contatos.

Não vou perceber quando te esquecer por completo. Alguém vai perguntar sobre você e eu vou responder “eu não sei”, sem lágrima, nem drama. Simplesmente não vou saber. E o seu fim em mim vai ser assim, morno. Silencioso. Diferente de tudo que te ofereci. Eu vou ser outra, porque o tempo transforma tudo e os seus pedidos de desculpas estarão vencidos. É uma pena que você não possa mais me conhecer. Você perdeu de vista a minha melhor versão.

Anúncios
Cartas e hipérboles, Despedidas, [+18]

Eu, dos seus males o menor [+18]

[Nós dois juntos nesse bar vazio, perdendo a conta de quantas cervejas dividimos. Uma noite quente demais para ser inverno. O efeito do álcool me torna cada vez mais permissiva aos seus toques sabidamente pretensiosos, mas também me faz precisar de muito mais atenção  na sua fala para entender e processar o que você diz.]

Tão mais lindas nos filmes, as despedidas. Os abraços nos aeroportos, os beijos apaixonados, as promessas de sei-lá-o-quê, os retornos. Tão mais lindas do que essa. Essa que começou junto com a gente… prevista, sabida, anunciada. Um milhão de vezes anunciada. Sofrida. Longa. Presente. Causam isso as despedidas todas? Retrospecto, nostalgia, grandes tristezinhas? Causam em mim, devo admitir, que carrego o gosto pelo drama e tudo em demasia, esagerata.

Atribuo esse amor muito intenso e muito triste, carregado de ironias e clichês, com textos e músicas e filmes à Vênus no meu mapa, em Escorpião. A você, crédito nenhum. Hoje doeu muito e eu não consigo nem te agradecer, como fiz algumas vezes. Se houvesse escolha, renunciaria cada segundo vivido até aqui só para não doer desse tanto.

Não espero que entenda, mas hoje eu não posso gostar de você.

[Baco Exu do Blues ecoando entre nós “morde minha pele pra abafar seu maior grito”, música alta. Mais alta do que o som da água muito quente do chuveiro batendo em minhas costas. Mais alta que o seu bramir de prazer enquanto eu estava ajoelhada diante de você no box do banheiro – já embaçado do nosso banho demorado – com as mãos para trás. A minha boca transbordando indecentemente seu gozo. O ar te faltando, sua boca entreaberta. Essa cena crivada em mim com trilha sonora “nosso problema sempre foi a intensidade, cê sabe que é verdade”. Uma foda animalesca, primitiva, desejosa e triste.

Não espero que se lembre de todos os detalhes assim como eu. É que o seu cheiro sempre demora mais para sair da minha pele do que o contrário.]

Não poder ligar só para dizer as coisas que se dizem em despedidas e nem poder dividir com você a dor dessa partida, não poder deixar doer me parece cruel demais para qualquer pessoa. Perverso demais para qualquer pessoa. Injusto demais, mesmo para mim. Não me obrigo a aguentar, por isso eu me perdoo por tanto choro e tanta reza. Por isso eu me desculpo por tanta tristeza e mau humor. E escrevo.

E em mim, que quase nada mais existe, procuro o desejo ínfimo de te ver feliz, da plateia mesmo, embora deteste o lugar. Eu detesto o lugar. Eu detesto ser plateia.

[Minha boca encostada na sua por um período maior do que o necessário. O Sol queimando nossa pele através dos vidros do carro, na frente do prédio. Nosso suor se misturando delicadamente pela última vez. O gosto desse hálito de despedida no último beijo. Últimas vezes.]

Essa dor dilacerante, que não tem nada de bonita como as outras, é lenha. Só a dor pura em estado bruto, sem lapidar. E dela não bota flor, nem água. É só dor de um jeito que nenhuma pessoa mereceria conhecer, nem mesmo eu, que tenho gosto. Falta ar. Falta muito.

[Atravessei a rua tão rápido quanto o possível, sem coragem ou forças para olhar para trás. Eu não te enxergaria, de qualquer modo. Esse olhar ressumado que você causa toda vez nunca me deixa vê-lo de verdade. O corpo em chamas de um jeito que não gostaria de sentir. Passos firmes até o hall, as mãos muito suadas apertando o botão incansavelmente, como se isso fizesse o elevador estar no térreo antes da primeira lágrima escapar de mim. Como se eu conseguisse segurar o choro de todos esses dias por mais um segundo.]

Se houver qualquer coisa para aprender com sua partida, espero que eu saiba aprender logo. Se houver qualquer coisa que possa me dizer sobre ela, espero que diga logo. Se eu pudesse dizer qualquer coisa sobre ela, repetiria o que te disse: nós estamos nos despedindo desde que nos conhecemos.

Cartas e hipérboles

Os olhos que passeiam sobre todas as mesas do bar

Será que entre todos esses risos e dentes existe alguém procurando alguém? Será que nenhuma dessas músicas é lembrança para outrem, além de mim? Só eu me sento aqui entre todas as pessoas mais felizes do mundo, mais inteligentes do mundo, mais interessantes do mundo e procuro por você, justamente por ser você? Ninguém percebe minha busca discreta. Eu olho todos os rostos enquanto levo copos e taças até a boca, respondo com alegria efusiva às perguntas de todos os amigos ao meu redor, brindo todas as vezes. Um milhão de brindes em uma noite. Rio exageradamente alto para uma piada sem tanta graça assim. As coisas todas não tem mais tanta graça assim.

Descanso os olhos sobre a mesa da frente, vejo todos os rostos do bar e os que passam borrados e felizes demais, embriagados de alegria ou cerveja ou solidão – não saberia dizer. Fico atenta à todas as vozes e assuntos, alguns poucos te deixariam interessado.  Eu esperava mesmo que você viesse por acaso. Esperava que o fluxo de energia gasto para pensar em você nas últimas semanas desencadeasse uma sucessão de acontecimentos para trazer você ao mesmo bar em que estou no sábado à noite e assim – só diante desse fato – eu acreditaria em destino. Esse ar ébrio me permite pensar que, se você viesse, alguns dos ensaios montados na minha mente teriam chance de tornarem-se possíveis (esses ensaios que você gosta de ler).

Se você abandonasse só por hoje esse digitar incessante de teses e artigos e me encontrasse aqui – por acaso, pelo destino ou por brincadeira do Universo – deixaria  pediria para você se sentar ao meu lado. Começaríamos uma daquelas conversas em que quase nos completamos – o que não são conversas de bar, mas que são possíveis em qualquer lugar, com você – e eu diria algo sobre como é triste entender minimamente o funcionamento e os sistemas de manutenção da sociedade pós-moderna e como o estado tem, gradativamente, reestabelecido o mecanicismo impactando diretamente na nossa forma de fazer e interpretar a arte, estabelecer laços e amar, você concordaria. E o seu hálito de cerveja carregaria referências, estatísticas e autores corroborando sua fala. Mais de uma vez durante a noite, tenho certeza, me sentiria perplexa diante da minha própria sorte por tê-lo reencontrado.

Beberíamos dos copos um do outro. Nos olharíamos silenciosamente por alguns segundos. Nós não nos beijaríamos, mas os nossos ombros e mãos se encostariam despretensiosamente, nenhuma pessoa daquelas poderia notar, seriam incapazes.

Teríamos ido para casa, transado ou não.

Poderia te ligar no domingo e passaríamos a tarde conversando para que eu pudesse te contar todas as coisas que preciso e para que você despejasse em mim todas as novidades que disse que tinha numa penúltima conversa. Sua voz seria a única coisa que eu ouviria por algumas horas, o que me faria esquecer a loucura das semanas que antecederam nosso reencontro e me deixaria menos triste por ter que existir. Você perguntaria se voltaríamos a nos ver.

Bem, eu diria que sim.

Parafraseando você mesmo, o que realmente não é justo com as memórias boas é o silêncio. Ele ocupa esse espaço imenso dos corredores barulhentos da faculdade enquanto eu caminho segura, fingindo estar incólume à sua ausência até, simplesmente, não mais estar. Ocupa festas e bares, a volta para casa numa embriaguez quase feliz. Ocupa os devaneios durante as leituras e os grifos que gostaria de te mostrar. Eu sou o próprio silêncio quando alguém me pergunta sobre você e me torno – mesmo com um acervo razoável de palavras no vocabulário – instantaneamente incapaz de formular resposta.

Em nenhum dos perfumes foi possível sentir seu cheiro. Sua voz não se sobrepôs à essa massa densa de conversas e risadas. O destino esqueceu da gente.

Não soube eu de nenhuma das novidades, não voltamos na feira para comer pamonha com queijo, nem andamos de bicicleta no fim da tarde do último domingo, não fomos ao observatório, nem voltamos na Paulista. Nós não andamos juntos pelos corredores largos do Ana Rosa. Eu andei só. Você não retornou à ligação e, desse lado da linha, eu começo a entender esses processos sobre os quais a gente tanto falou.

Todas as mínimas coisas vêm de um processo.

Os meus últimos processos, carregados de diacronia, tem essa sensação de que você está em mim quase sempre, mas nunca está comigo. Então, ligar a máquina de lavar muito tarde da noite porque é o único horário possível pra colocar as coisas em ordem, comprar livros cujos títulos te fariam rir muito, salvar muitas receitas de doces na pasta do Pinterest pra não cozinhar pra você, sentir falta daquele nosso baseado chá com música nas noites de sexta, pra relaxar, e olhar pra parte do sofá que te cabia é um processo. Todos os processos contando algo sobre a segunda vez que te amei e sobre todas as outras.