Riscos exponencias

A vida adulta baseia-se em consumir uma quantidade absurda de café pra conseguir, ironicamente, estudar sobre os fármacos anti-arrítmicos até muito tarde da noite e querer ligar pra você à uma e trinta e quatro da manhã só pra dizer que os meus batimentos estão assustadoramente acelerados sem ter certeza se isso é sobre café, fisiologia ou se é sobre saudade. Ligar só pra ouvir tua voz, porque tenho impressão de que a estou esquecendo. Me fugiu da boca o nome que eu mais amei dizer na vida – porque eu parei de pronunciá-lo – e isso me assustou. Dizer o seu nome em voz alta e contar pra você que eu tenho medo de matar a coisa mais rara que já senti e nunca mais conseguir te olhar com olhos de amor, como se você, que era incandescente pra mim, parasse de brilhar. Medo de nunca mais te ver – como se suas moléculas dissipassem no Universo. O desvencilho do esquecimento me assusta. Mas, mesmo você desfeito, dissipado, me deixa uma lembrança nítida do seu cheiro. A memória de um carinho de horas com você na cama e madrugadas de recaída fazendo amor serviram apenas pra doer em mim. Pra doer infinito, uma dor sem limite de tempo e espaço.

Passou pela minha cabeça que o horário não fosse, talvez, apropriado para discutir os preceitos da física. Mas era necessário. Como eu faço pra você entender que corpos super-massivos atraem outras massas? Os impactos causados pelo encontro das massas desintegram os corpos moleculares, isso são colisões cósmicas. Colisões podem ser catastróficas, como nós. Como eu explico pra você que entropia é energia perdida, que não pode ser recuperada depois de uma colisão entre os corpos massivos. Você não acredita quando eu digo que essa energia não retorna nunca mais ao corpo massivo que a dispensou. Será que algum outro corpo super-massivo no Universo a absorve? Pensei na energia que despendi por você. Apesar da entropia e mesmo depois das colisões, as moléculas produzem energia incessantemente. Isso não é bonito?

Andando pelas ruas, eu já nem sei dizer se o seu rosto é muito comum ou se a minha mente imprime traços seus em tudo o que se movimenta. Você era calor, pra mim. E agora, ficar desesperadamente assustada com um contorno parecido com o seu se aproximando de mim ou vê-lo no cruzamento mais movimentado da cidade com as mãos descansadas no volante, esquecido da minha existência enquanto o meu coração bate um milhão de vezes por minuto, me faz pensar em entropia. Seu esquecimento mareja os olhos – os meus, é claro (você não acha bonito esse verbo? marejar), – embarga a voz. Mas todas as moléculas vão, inevitavelmente, se desfazer. Toda molécula está por um triz, todo amor do mundo também. É o risco que se corre por existir. Essa é a angustia primordial do ser humano: a consciência da finitude. Saber que é esquecível. A dor é ser um rascunho do Universo, esquecível, inotável (essa palavra inexistente, mas tão necessária), olhando você de longe.

Cansada das não delicadezas da sua ausência, decidi dissipar por mim. Amar também é sair de cena. Me assusta pensar que você vai ser sempre essa massa condensada por cima das minhas palavras e das minhas músicas – e nas lembranças, com o peso do corpo por cima de mim -, sem voz, sem cor, sem calor, mas com cheiro, essa saudade intransponível (que nem é física) parecida com um móvel antigo que eu arrasto por aí.  Embora eu não tenha nenhuma explicação metafísica para o amor que sinto por você e nenhuma analogia que eu realmente gostaria de usar, quero te pedir pra não duvidar dele, porque isso é o que eu sou. Eu sou esse tanto de amor por você, e esse corpo que me carrega tem lembrança na pele do seu calor que queimava. Me desculpe, o que sinto por você é tão grande que, às vezes, não sei como lidar e nem como não escrever sobre isso.

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Transato e presciente

Todas as pessoas são dignas de serem amadas, cada um ao seu modo. Amor não é questão de merecimento, às vezes, você vai amar alguém que não te “merece”. Quando alguém disser “ você merece uma pessoa melhor do que eu” acredite, pode ser a única verdade que ele te disse. Um relacionamento feliz não precisa ser monogâmico – ele não precisa ser nada, só feliz mesmo. Você não é propriedade de ninguém, ninguém é sua propriedade. Amor e desejo sexual são coisas imensamente distintas. Amor é construído.

Tem muita gente bem fodida da cabeça que vai depositar dramas pessoais em você, tenha cuidado. Ser feliz sozinho é magnífico, ter alguém que fique feliz por sua felicidade também é. Ser feliz sozinho é necessário, estar com alguém pra ser feliz é dispensável. Não dá pra ser educado e cordial pra sempre com quem sempre te magoa e finge que não sabe o que está acontecendo. Você precisa decidir quem realmente merece sua companhia e dedicação. As pessoas normalmente sabem o que querem/esperam mas têm medo de arcar com as consequências das suas escolhas. Não seja essa pessoa.

Têm pessoas que vão usar você, sim. E vai doer absurdamente, mas passa. Você é uma pessoa linda e deliciosa de ser amada e tem gente que sabe disso. Às vezes você não vai ser o melhor pro outro em uma relação. Precisamos aprender a não desistir de quem amamos, mas também a não desistir de nós – em hipótese alguma – por ninguém.

Mantenha algumas músicas sagradas e não divida com ninguém, você vai precisar de músicas que não estejam vinculadas aos relacionamentos, depois que eles terminarem. Relacionamentos terminam e isso não é ruim. Felicidade juntinho em segredo é melhor do que qualquer declaração de amor escancarada. Vamos conhecer pessoas com quem vamos fazer sexo, pessoas com quem vamos fazer amor e pessoas com quem vamos fazer os dois. Amar é bom. 

Un letto per tre [+18] – Parte I

No elevador, pensei um milhão de vezes em desistir. Sentia minhas mãos suando e as válvulas cardíacas trabalhando muito rapidamente. Olhei por alguns segundos o meu reflexo no espelho e saí, antes que pudesse apertar o sete e voltar pra casa. Ele já estava me esperando. Isis não veio, apenas Thiago. Fomos conversando durante o caminho, relembrando a adolescência que, agora, não parecia tão distante. Nossas falas se sobrepunham acerca de trabalho, estudos, algumas lembranças nostálgicas (o que incluía dizer o quanto eu amava o cabelo dele e o cheiro de shampoo que se espalhava quando o soltava). Chegamos até a casa de Isis e, ao sair do carro, Thiago me deu um abraço carinhoso, um beijo no rosto e abriu o portão para que entrássemos.

Passamos por um corredor até chegar a porta de entrada da casa. A cumprimentei com um beijo no rosto e entreguei o vinho que havia levado. Ela tinha um cheiro delicioso, estava de shorts e com um blusa preta bem solta. O preto contrastava forte com o branco quase translúcido de sua pele. Eu e Thiago nos sentamos no sofá enquanto Isis fazia o jantar e conversava conosco. A conversa foi regada a vinho, ficando cada vez mais descontraída, mais gostosa. As mãos de Thiago encontravam as minhas pernas, acariciavam meus braços entre uma frase e outra e já não havia muito espaço entre nós. Logo estava relaxada, deitada sobre um dos braços dele, confortavelmente, como dois amigos que sempre fomos. Estranhamente, eu não sentia nenhum desconforto, nenhum constrangimento e, talvez por saber o objetivo do nosso encontro, já me sentia muito excitada. A temperatura havia aumentado, talvez para todos nós.

Durante o jantar, conforme Isis fazia algum movimento, gesticulando sua fala, sua blusa deixava os seios quase à mostra e, embora, eu nunca tenha reparado, a situação me instigava a olhar e observar os seios dela enquanto falava, distraída, do curso de hipnose que havia começado. Talvez Thiago tenha percebido meus olhares furtivos e pediu para que ela não se cobrisse novamente. A blusa poderia continuar caidinha sobre seu colo, deixando o decote lindo exposto, a quem poderia incomodar? A ideia de tocar tanto nela quanto em Thiago era provocativa, fazia minha imaginação montar milhares de situações, todas elas muitíssimo prazerosas. Terminamos o jantar, mas, só mais tarde, na cama, me dei conta de que eu seria literalmente a sobremesa.

Deitamos os três, trocando carinhos, conhecendo a pele e cheiro um do outro. Me lembro de ouvir uma música muito agradável. O que nos iluminava eram pequenas luzes dentro de garrafas de vidro transparente que estavam em cima da estante. A troca de olhares entre nós me parece muito difícil de descrever. Sentia que, realmente, havia uma conexão ali. Era como se fôssemos imãs de energias opostas, atração inevitável. Me ofereci para fazer uma massagem em Isis. Modéstia à parte, porque faço uma massagem muito gostosa e também porque, durante esse curto espaço de tempo, o casal inegavelmente me cativou. Queria agradá-los. Queria acariciá-la, conhecer seu corpo por centímetro, deixa-la relaxada.

Comecei nas costas, devagar, espalhando o creme em movimentos firmes e constantes, sentindo a musculatura dela relaxar aos poucos. Thiago observava atentamente, com um brilho desejoso nos olhos. Era bonito de ver. Passou a mão por entre as pernas dela, a fazendo soltar um gemido baixo, quase preguiçoso, e me mostrou a mão úmida de um tesão que já nos acompanhava desde o início da semana. Soltou o fecho do sutiã de Isis. Muito antes que eu pudesse perceber, o corpo dela estava totalmente nu sob as minhas mãos quentes. E que corpo. Eu nunca havia antes tocado em uma pele tão macia, era como tocar em veludo, a bunda dela fazia um desenho perfeitamente arredondado, farta, empinada, chamativa. A massageei dos pés a cabeça. Virou de frente pra mim, olhei, sob a meia luz, os seios dela. Deliciosos – já posso adiantar que são – os biquinhos claros, durinhos. Por um tempo eu só a admirei. Pensei, honestamente, em como os homens perdem oportunidades maravilhosas de olharem o corpo de uma mulher, de observá-lo, de conhecê-lo.

Antes que meu pensamento dissipasse sozinho, senti Isis me beijando, um arrepio percorreu meu corpo, me sentia em transe. O ar era erótico, sexual, estávamos imersos – e por longas horas estivemos – em uma atmosfera única de tesão e satisfação. Thiago observava atentamente nossa troca de carícias enquanto se masturbava, fui despida aos poucos pelos dois. Enquanto meus seios eram sugados por ela e minhas mãos encontravam com sua boceta muito molhada, Thiago estava vidrado em nós. Não resistiu muito tempo até querer entrar pra brincadeira. Trocamos beijos indecentes, famintos, calorosos, puramente orgânicos, imensuravelmente deliciosos. Por vezes, não sabia distinguir quem estava me tocando, ou qual boca estava na minha pele. Fui ao nível máximo de prazer que já conheci. Thiago tem as mãos grandes, pesadas e firmes. As senti segurando a minha cabeça, os dedos por dentro do meu cabelo já emaranhando. Conduziu minha boca até seu pau. Grande, grosso e muitíssimo duro. Tinha veias protuberantes. Ouvia uns gemidos baixos que ele soltava, parecia que estava prestes a explodir.

Durante o tempo que sentia seu pau  preencher toda a minha boca, Isis se serviu de uma taça de vinho e veio nos observar. Nunca vi nada tão lindo quanto ela ali, nua, bebendo vinho, com um sorriso de canto de boca. Thiago a pegou pela mão e a colocou de quatro pra ele… ele dizia palavras de ordem e ela o obedecia. Os braços de Isis davam apoio a ela e estavam ao lado do meu corpo. Sentia o corpo dela emanando calor enquanto Thiago a comia. Ora observava a expressão de prazer dele, olhava suas mão grandes segurando a bunda de Isis com força, ora pegava o rosto dela com as duas mãos e fazia esforço pra fotografar com os olhos cada fio de cabelo grudado no suor de sua testa e pescoço. Ouvir os gemidos baixos dela e sentir seu corpo encostar no meu no mesmo ritmo em que ela era deliciosamente comida. Enfiou a cara no meu cabelo, ouvia os seus gemidos bem perto do meu ouvido e sentia sua respiração no meu pescoço, quente e ofegante. Com a voz doce, mas firme, me mandou abrir as pernas pra ela. Eu nem imaginava o que viria seguir…

Literata

O processo da escrita é muito dolorido, mas igualmente prazeroso. Coloca-se as cartas na mesa, escolhe-se com quais cartas jogar. Quando é sobre saudade é mais dolorido do que prazeroso. Tenho tido saudades assustadoramente simples e imensamente faltosas como a de cantar com você e te embaçar com a minha respiração próxima demais. Queria só te ver inteiro, nem que de longe e eu não beijaria de novo o beijo que eu mais amei na vida, nem trataria como lascivo esse reencontro, pediria a você coisas incompreensíveis, mesmo pra mim. Olhar pelo maior tempo possível os seus olhos e rosto, segurar e beijar suas mãos. Beijar suas mãos e dedos com um tanto de carinho que não cabe direito em mim. E respiraria você. Respiraria você em silêncio só pra ter um tanto do que é seu passando por mim sem ser em lágrimas. Pra ter você nos brônquios e bronquíolos e perto do coração.

Diante das tantas formas que você me machucou, mesmo depois de deixar mais do que claro que eu nunca seria uma escolha sua, continuar me atingindo à distância, reduzindo tudo que eu mais amo ao seu não-gostar e à satisfação do seu próprio ego foi, talvez, a mais cruel – se não formos falar de responsabilidade afetiva. Não sei entender sua falta, é uma saudade tão abrupta quanto a despolarização da célula quando os canais de sódio se abrem. Mas eu não repolarizo, não estabilizo, você fica me inundando. E eu, assim como todo o mundo (assim como todo o mundo?), atropelada pelos acontecimentos da semana, cansada da rotina pesada, querendo sonhar – querendo só sonhar – com você, me pego tentando fingir que isso tudo logo passa, que a gente se vê. A gente se acha?

É insano pra mim que, mesmo depois de todos os seus reducionismos acerca do que sinto e sou, meu coração ainda nutra um carinho meio morno e saudoso por você. Nós, que escrevemos, somos mentirosos em potencial. Porque tudo por nós é vivido à flor da pele e retratado tão mais intenso quanto possível. Mais intenso do que o possível. Escrever torna todos os amores eternos. Rende orgasmos à todos os sexos, paixões à todos os encontros. Reencontros à todas as despedidas. Então, quando leio você nos rascunhos feitos por mim, procuro o amor descrito e não encontro em lugar algum. Porque eu te escrevi, você é obra minha. Personagem fictício. Obra pronta é pro outro, não é nossa. 

Me resta, diante dessa saudade inexorável que você nem merece, fazer o que é esperado e aconselhado por todas as grandes massas frustadas no amor: sair e beber infinitamente mais do que eu aguento, dançar  músicas que eu nunca dançaria sóbria, beijar a boca de todos os desconhecidos que cruzarem meu caminho, chorar por causa de você até soluçar mas, nunca mais – em nenhuma hipótese – pedir pra você voltar. Escrever um fim pra você, com cenário pronto. Me escrever depois de você, amanhã cedo, mais feliz porque você passou. Daqui há um ano, talvez, com um milhão de amores eternos vividos e escritos e com, pelo menos, um milhão de orgasmos também, a gente se encontra. Eu escrevendo, enfim, sobre o prazer da solitude que não tem muito a ver com estar sozinha, mas com ser feliz demais quando se está e você eu não sei, porque nunca te conheci. 

Borrões

Sentei de frente pra ele. Olhei a barba, os tons de loiro mais claro nos fios mais próximos da boca, a pele clara com um vermelho nas bochechas, que denunciava o vento cortante lá fora. Estávamos em uma padaria alemã em que nunca havia estado com ele antes. Apenas só. As mesas grandes de madeira, as janelas amplas e o cheiro de bolo caseiro me fizeram sentir menos triste. Ele descansou as mãos entrelaçadas sobre a mesa. Olhei as mãos. Os dedos brancos e grossos, gelados – eu pensei – mas não encostei neles. Usava uma jaqueta preta e pesada e o perfume, bem, o perfume era o dele. A mesa tinha pequenos pedaços de vidro colorido por baixo de uma resina. Às vezes o rosto dele era só um borrão, por causa das lágrimas incansáveis que brotavam dos meus olhos. Quando olhava, então, para baixo, os pedaços de vidro tornavam-se borrões coloridos. Pareciam luzes de carro na chuva.

Enquanto ele dizia coisas indizíveis e os meus olhos choravam sozinhos eu gravava o cheiro do bolo e o borrão colorido dos vidros, pra lembrança ser menos triste. Era como se eu estivesse dentro de mim assistindo tudo e gritando com ele. E eu ordenava que meu corpo se levantasse e o abraçasse e que minha voz gritasse muito alto “ você não sabe o que está fazendo” – eu iria dizer . Meu corpo não se movia. Minha voz não saia. Só meus olhos choravam. Quando ele não era um borrão, eu conseguia me enxergar no reflexo do óculos. Mas eu era nada. Lembro de querer que ele chorasse também, pra me enxergar um borrão e não ver me ver nítida. Pra não ver meus olhos cansados e vermelhos. Não ver minhas mãos trêmulas. Pra não me ver tão frágil diante da falta à qual ele estava disposto a me submeter.

Me esforçava para ouvi-lo, mas só conseguia pensar nos borrões coloridos. E ele disse algo como hora certa, muito trabalho, intitular relações, eu amo você mas, mas, mas.  Mas o quê? Tinha um frio em mim de menos vinte graus, de dentro pra fora. Eu só soube recostar na cadeira linda de madeira, e eu sentia lágrimas gordas saírem dos meus olhos, sentia minha pele doer, e soluços tão doloridos (sabe do-lo-ri-dos?). A última carga de energia que eu tinha usei pra segurar meu cachecol com as duas mãos – o senti molhado das lágrimas gordas. Levantei os olhos e o rosto dele era um borrão de uma luz só. Uma luz só, do sol das seis da manhã me acordando – atrasada – e me lembrando que tem um dia novo pra sonhar.

Meias pretas e domingos

Eu deixo, então, a porta entreaberta pra você saber que é bem-vindo no banho. Vou deixar sua presença ocupar os vazios de antes, de ontem. Vou deixar sua risada gigante tomar conta da sala. Eu deixo você olhar esse corte aberto, em carne viva, falando por mim. Por enquanto, só olhar. Ele ainda dói. 

Eu vou começar deixando você saber as manias bobas que eu inventei. Deixo você quebrar, às vezes, a solidão dos domingos pra gente se aninhar no sofá e fingir que a vida não começa de novo na segunda. Eu aceito as conversas sobre documentários, eu critico com você as políticas públicas atuais, eu divido com você as dores do mundo inteiro aqui na sala mesmo. Não vou negar nenhum sorriso – nem lágrimas – pra você. Aqui, em habitat natural, eu deixo você olhar, displicentemente, meu caminhar nu e despreocupado pela casa. 

Eu paro de me cobrir pra você. Deixo você me ver de cabelo molhado, cara limpa, coração na mão… sem me preocupar se te agradam ou não as coisas de mim que já não escondo mais. Nem pra você, nem pra ninguém. Eu aceito a companhia silenciosa enquanto estudo e não nego enrubescer sob o seu olhar desejoso, acompanhando a direção dos meus olhos na leitura, mas dispenso sua necessidade de atenção. Eu não reparo mais se você usa meias pretas depois de fazer amor foder comigo – quero falar amor agora, mas você sabe do que se trata esse estrago que a gente faz.

Permito que você me veja e que você me saiba – mesmo sem saber quase nada – e que tire suas próprias conclusões sobre as coisas que lê sobre mim. Deixo você tecer, ao pé do ouvido, seus elogios sobre meu cabelo e cheiro (e também sobre o meu sofá!). Rio largo pra você. Mas digo – cerrando os lábios em seguida – que prefiro quando elogia a minha escrita (mesmo que você não goste dos recursos de linguagem que eu aplico em tudo) e inteligência. Eu deixo você vir porque me prometi que tudo o que é de viver será bem-vindo e que eu vou aprender a cicatrizar as dores póstumas do que foi vivo e lindo com letra e sal – e água.

Deixo você achar bonito meus orgasmos e gemidos e divido meu sono com você, porque combinei comigo que é bom saber dividir a cama de vez em quando. Queria poder dizer que eu estou pronta pra você. Mas a gente é verdade demais pra fingir qualquer coisa. Seu ceticismo facilita tudo, mas, acredita em mim: tudo o que a gente faz toma sentido quando é dividido. 

Eu reflito sobre as suas críticas maravilhosas aos sistemas totalitários, mas você precisa aceitar que a composição do nosso líquido extracelular é praticamente igual à da água do mar. Eu te dou tempo pra digerir meus discursos extensos e compostos, sou paciente – você mesmo diz. Eu aceito esse afeto todo, porque sou fácil de gostar mesmo. E doce. Você diz isso também. Deixo você ser factual e responsivo.

Aceito suas complexidades e desconstruções (que eu amo tanto), eu ouço atenta sobre os seus amores de antes, falo sobre alguns dos meus – os que consigo citar já sem desconforto (amor é pra ter desconforto?). Eu deixo, sim, você tocar em mim de outros jeitos, em qualquer lugar mas, diante de todas as coisas de mim que te permito, só peço em troca ser livre de carregar o fardo de precisar ficar.

Silêncios

Hoje eu iria te chamar pra vir aqui e, sei lá…
Cozinhar pra você.
A mesa pronta, um programa de domingo na tv.
Te contaria umas coisa que eu sei agora – e que você já sabe
há tanto.
Te pediria uns conselhos e, eu sei
Você secaria esse pranto.
Me contaria histórias de antes
Mexeria nos livros da estante
Paciência você iria sussurrar… pai.

E aí, nem que fosse num sonho,
Iria poder te dizer
Que a falta que faz é tamanha, que eu amo a sua maneira estranha
de guiar os passos que insisto em pisar.
Sua voz outra vez ouviria, pra quebrar o silêncio de anos, consertar possíveis enganos e o timbre eu poder relembrar.

Hoje eu sou só saudade de você.