Diálogos, Repetição é um recurso de linguagem que eu adoro

Je te remercie, vie (partie I)

A Lua em Netuno me deixa em paz na minha superficialidade. Não propõe reflexões paradoxais profundas. Não condena as minhas leituras fúteis, como Ottessa Moshfegh, enquanto o mundo colapsa mais rapidamente do que o previsto. A Lua em Netuno tira o foco do amor romântico e deixa que amemos o produto do amor, a arte. E então, é possível, muito mais facilmente do que quando a Lua está em Vênus, descrever a arte não sôfrega. É possível dizer, portanto, sem nenhum julgamento, o quanto foi imensamente prazeroso comprar duas garrafas de vinho muito barato no mercado e bebê-las sozinha —  porque é como fazemos as coisas agora —, a primeira na taça, a segunda direto da botelha, o quê me levou até aquele ponto exato em que nos sentimos levemente felizes apesar de. A Lua em Netuno permite essa felicidade fulgaz, idiota. O final de uma segunda garrafa de vinho barato quando a Lua está em Netuno faz a gente acreditar numa sensualidade cinematográfica. Eu dancei Imported muitas vezes. Sem coreografia. Sentia a música passando pela minha corrente sanguínea. O meu cabelo, que agora parece ter crescido mais do que o normal nos últimos dias, colava no suor do meu pescoço e na testa. Eu tinha hálito de vinho e  o meu último banho exalava pelos poros. Evaporava. Fiquei excitada comigo. Me masturbei no sofá, só a luz das janelas vizinhas quebravam a penumbra da sala. Gozei duas vezes. Talvez eu tenha pensado em algo relevante alguns segundos antes de mergulhar no subconsciente. Acho que agradeci por estar disposta, quando a Lua se alinhar em outras quadraturas, a ser incomodada pelo sofrimento alheio.

Cartas e hipérboles, Diálogos, Listas

Todas as coisas que eu precisava fazer de novo ou nunca mais

Cheirar seu cabelo como se fosse a última porção de oxigênio disponível. Beijar seus olhos, sentir seu cílios claros encostando nos meus lábios. Beijar cada centímetro do seu rosto como se eu fosse dona do tempo. Repetir seu nome muitas vezes pra você nunca esquecer o timbre da minha voz quando chamo por você. Beijar suas mãos e dedos como se fossem as coisas mais preciosas que já fui capaz de tocar. Abraçar você com toda a força que os átomos dos nossos corpos físicos são capazes de aguentar. Te dar um cheiro no cangote.

Olhar você por muito tempo pra te decorar. Passear com as mãos por cada milímetro do seu corpo, contornando suas pintas com as pontas dos dedos. Morder você de brincadeira. Beijar você como se nunca tivesse sido machucada por palavras que saíram da sua boca antes e muitas vezes. Respirar seu hálito. Deixar seu toque arrepiar minha pele sem lembrar da dor que ele é capaz de causar. Correr até você e te abraçar. Dividir um café pra te beijar com esse sabor.

Te contar muitas coisas. Contar. Tantas. Coisas. Te dizer frases soltas em francês. Ouvir sua respiração densa enquanto dorme. Beijar seu pescoço enquanto sinto o cheiro de amaciante da sua camisa. Te dizer que eu te amo muito muito muito muito e isso é a coisa que eu mais odeio em mim. Não ligar nunca mais. Morrer na sua memória pra não sentir você pensando em mim com tanta frequência, a 640 quilômetros de distância, normalmente na madrugada. Esticar a alma pra te perdoar.

Caber entre você e o volante do seu carro confortavelmente pra te beijar, como se, diante do caos instaurado no mundo, essa fosse a única coisa capaz de nos salvar. Te salvar. Me salvar. Ter raiva de você por ser covarde. Não me acovardar diante do amor. Nunca mais voltar pra esse espaço apertado e mesquinho que você ousou me oferecer, mesmo quando quiser muito me aninhar em você. Escrever um livro. Salvar uma vida além da sua.

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O corpo bonito

O corpo bonito
Dos olhos fechados
Pele íntegra
Balbuciava a dor sem a dizer

Corpo bonito
Dos olhos fechados
Não sei se me ouvia
Nunca vou saber

Corpo bonito
Preso ao leito sem querer
O cheiro mesmo de corpo
Igual a todos os outros
Que a gente finge não ter


O corpo bonito
Pesando no leito, com a dor de existir
De dentes faltando
Da boca comida por dentro
Por vermes felizes

O corpo bonito
Ainda vivo
Brincando com a morte
Sem se mexer

A matéria escumalha
Feito a minha e a sua
Em volta do corpo, sem poder se limpar  

O corpo bonito
Para o qual eu cantava
Pra ser menos triste entender tudo isso
Sem saber explicar

[+18]

Le voisin [+18] – Final

Digamos que eu não sou uma mulher que espera as coisas acontecerem por si só. Fiquei imaginando em que situação eu o poderia encontrar novamente e como eu faria pra que ele notasse o meu interesse libidinoso. 

Dois dias depois de termos conversado na porta, estivemos juntos no elevador novamente. Senti um nervosismo atípico, uma taquicardia. Ensaiei mentalmente um diálogo e, na minha imaginação, em poucos segundos estaríamos nos agarrando no elevador e eu tiraria sua farda ali mesmo, na frente das câmeras. Fiquei em silêncio. Um pouco antes de chegarmos ao andar, ele deu um meio sorriso, as mãos no bolso, os olhos fixos na porta do elevador, você não  me mandou mensagem – disse como se soubesse que observei sua porta naquele dia, como se soubesse o que eu estava pensando alguns segundos antes. Eu sorri – não quis parecer desesperada por você, embora estivesse. 

Antes que pudesse voltar às minhas fantasias, senti uma de suas mãos passando pela minha nuca, por baixo do meu cabelo. Em um único movimento ele me puxou pra muito perto e me beijou como se eu tivesse pedido. 

Um tipo de transe tomou conta de mim, sua língua quente procurava a minha e o que me mantinha em pé eram suas mãos dando aporte ao meu corpo entregue. Com uma mão enfiada no meu cabelo e a outra espalmada em minhas costas, por baixo da blusa, ele alternava os beijos com mordidas, passava a barba no meu pescoço. Bom, depois desse momento eu não seria capaz de negar nada. Já podia sentir o pau dele, muito duro, encostando na minha coxa. Eu já estava molhada muito antes de ele colocar as mãos em mim, no elevador. 

O vizinho é um homem de porte grande, não precisou de muito esforço pra me conduzir até sua porta e – antes de abri-la – enfiar os dedos por dentro do meu jeans. Soltei um gemido, ali mesmo no corredor. Ele encostou uma das mãos com firmeza na minha boca – shhh, vamos entrar. 

Tinha algo nele, não sei se a voz de comando, não sei se o jeito como parecia faminto, ou a forma como me movimentava facilmente pela casa, que me fazia querer ficar. Não me lembro de ter dito nada. Desabotoou minha blusa, abaixou minha calça enquanto lambia e mordia minhas coxas e, ainda de farda, me mandou ajoelhar. Chegou muito perto de mim e enquanto meu o meu coração batia arrítmico, mantive os olhos nele. Abriu a calça na minha cara e eu senti o seu pau pressionando minha bochecha, minha boca cheia d’água. Como que por instinto o enfiei na minha boca. Me mandou colocar as mãos pra trás. Obedeci. Podia sentir seu corpo tendo pequenos espasmos, enquanto eu passava a língua na cabeça do seu pau, o provocando. Eu não estava me aguentando de tesão, mesmo com o seu pau inteiro na minha boca, eu continuava me projetando para frente e os gemidos dele me davam vontade de não parar nunca. Me levantou pelo cabelo e me deu um tapa na bunda antes de me colocar de quatro pra ele. Me sentia tomada por um tesão insano. Tinha maturado essa cena algumas vezes na minha cabeça. A ideia da farda e do controle que o vizinho exercia sobre mim me escorria entre as pernas. Literalmente. 

O apartamento estava em silêncio, mas parecia que o sangue circulando muito rapidamente pelo meu corpo era trilha sonora da cena. Era um silêncio de calor. Ele passava os dedos em mim e me fazia sentir seu pau passando pela minha bunda. Era um desejo desesperador. Antropofágico. Me fez pedir por ele. Ele me fez pedir. 

Perdi as contas de quantas vezes quase gozei. Alternava os movimentos e passava os dedos em mim pra me provocar, enfiava os dedos na minha boca e me enforcava enquanto me comia. Me concentrei pra não me entregar ao orgasmo, porque não queria que acabasse nunca. Queria continuar sentindo o calor que emanava da pele dele em mim. 

Com uma das mãos, manteve meus punhos unidos acima da minha cabeça, como uma algema. Ele estava por cima de mim. Metia com tanta força que me faltava o ar. Mais tesão do que sentir ele se movimentando dentro de mim era o olhar dele fixo, observando minhas expressões e os seus dedos grossos, entre os meus gemidos, sendo enfiados na minha boca 

Eu sabia exatamente o que estava acontecendo. Eu sabia que o seu hipotálamo estava a recebendo os estímulos de toque e transformando em noradrenalina. E que tudo acontecia simultaneamente em mim. E mesmo assim, tudo parecia muito mais simples e as frases obscenas que ele me dizia eram muito mais interessantes naquela hora. 

O vizinho adorava ser obedecido. Depois de levar alguns tapas e começar a sentir a minha pele queimar no exato formato das suas mãos, fui pega pelos pés. Me puxou para que eu ficasse deitada e de frente pra ele. Colocou três dedos dentro de mim, um de cada vez. Ele me olhava atentamente a cada dedo que enfiava. Observava meu corpo se contorcendo. Era impossível não gemer. Diante do menor som que eu emitia, recebia um olhar de reprovação e uma ordem em tom firme e sóbrio: cala a boca. Eu tentava obedecer, mas era incapaz e isso triplicava meu tesão. Sentia um desejo quase que antropofágico. 

Me colocou de joelhos novamente e segurava minha cabeça com muita força, de um jeito que eu não conseguiria me desvencilhar – não que quisesse. Mesmo sem ar fazia questão de engolir o pau dele por inteiro, ficava orgulhosa de mim pelo feito e sua boca semiaberta num gemido me davam aval pra continuar. Senti seu gozo quente e grosso enchendo minha boca, olhando pra ele satisfeita. 

Me fez um carinho no rosto, me levantou do chão. Pediu para que eu me vestisse e saísse porque ele estava de plantão, mas mandou eu deixar minha porta aberta pois ele viria mais tarde, para terminar o que começou. 

Cartas e hipérboles, Repetição é um recurso de linguagem que eu adoro

Ligação

Amanhã vou te ligar para contar que quase te esqueci. Eu vou ligar falante, feliz  — bem como sou — dizendo que agora eu rio contando as minhas próprias costelas de frente para o espelho. Eu corri tanto que moro nesse corpo magro que você nunca tocou. Corri do espaço vazio que você deixou. Que seja.

Vou me gabar porque já cozinho razoavelmente bem e troco chuveiros e faço compras. Eu já arrisco umas frases em francês, porque precisei de outro idioma para as coisas que não pude dizer. Vou fazer você me ouvir. Parlant.

Vou dizer que ainda não te esqueci por completo e que o som da sua voz ainda me dói e faz minha carne tremer (não sei um jeito bonito de dizer isso, por ora), mas me agarro na certeza de que vai ser de repente. Vai ser num desses dias de folga, em que danço só de calcinha pela casa e aí, eu simplesmente não vou lembrar. Ou num domingo caminhando pela Paulista, olhando os livros expostos na calçada, cantando Caetano com o Bolero Freak — aos berros. Eu não vou lembrar. Nem do seu cheiro, nem de como as suas mãos grandes sobre as minhas me fizeram sentir segura e nem de como o som do seu riso deixava meu coração quente.

Vai ser num desses dias de fazer mercado, olhando as prateleiras, passando por qualquer uma coisa das quais você gosta(va) de comer e eu não vou lembrar. Ou na fila do banco. Vai ser quando o seu nome não significar mais nada e quase ninguém vai se chamar você, ou quando eu terminar esse rascunho. Vai ser quando eu me formar e não quiser te contar, nem ouvir suas felicitações. Quando eu não quiser dividir nada com você, nem medos, nem conquistas. Você não pode mais se orgulhar de mim (isso desde já, antes de eu te esquecer todo). Quando algo ruim acontecer e o seu número não for o contato de emergência. Bem, você não estará mais nos meus contatos.

Não vou perceber quando te esquecer por completo. Alguém vai perguntar sobre você e eu vou responder “eu não sei”, sem lágrima, nem drama. Simplesmente não vou saber. E o seu fim em mim vai ser assim, morno. Silencioso. Diferente de tudo que te ofereci. Eu vou ser outra, porque o tempo transforma tudo e os seus pedidos de desculpas estarão vencidos. É uma pena que você não possa mais me conhecer. Você perdeu de vista a minha melhor versão.

[+18]

Le voisin [+18] – Parte I

Nas últimas semanas fui pega pela máxima de viver em um condomínio: um vizinho barulhento. Nenhum dia de paz nesse apartamento.

Ele não mora no prédio há muito tempo, alguns meses, eu diria. O encontrei algumas vezes no elevador, levando o lixo ou saindo com a cachorra para passear, uma vez voltando do trabalho, fardado… Confesso que antes de vê-lo vestindo a farda nunca o tinha observado. Os segundos juntos no elevador e aquela massa constrangedora de silêncio depois de um “ boa noite” tímido e cordial me possibilitaram um olhar mais atento ao tamanho das suas mãos, à sua pele negra não retinta, aos ombros largos.

O fato de ele ser um homem bonito e aparentemente muito educado não fez com que o barulho que vinha de seu apartamento fosse menos incômodo. Era como se ele deixasse alguma porta aberta, que sempre batia. Sempre quando o barulho começava, eu interfonava para ele e nunca havia ninguém. Há de ser a cachorra – pensei comigo.

No último final de semana, precisei fazer revisão de vários artigos e materiais para o início do semestre. Não conseguia me concentrar nem por um minuto com o barulho do 73. Gravei um vídeo, fui até porta dele, onde o barulho era muito mais alto, ecoando pelo corredor. Continuei gravando por alguns minutos. Enviaria para o síndico e imploraria por uma solução.

Alguns dias após a gravação, encontrei meu vizinho-problema  no elevador. Eu estava com algumas compras, ofereceu ajuda, aceitei. Tomei liberdade pra perguntar do barulho. Quando chegamos no corredor, peguei o celular para mostrar o vídeo recém-gravado. A prova do crime. Peguei as compras e pedi pra ele assistir enquanto eu abria a minha porta. Ele ouviu atento  o som, constatou que só poderia ser a cachorra mas não saberia dizer o que ela estava fazendo. Passou para a próxima foto. Por um segundo eu não soube o que fazer. Eu enviei uma foto comprometedora na noite anterior, e ele a havia visto. Não dava para ver meu rosto, só a a calcinha vermelha de renda minúscula e uma parte do meu cabelo. Ele encarou a foto por alguns segundos, rapidamente se desculpou e me entregou o celular.

Pediu para que eu anotasse o número dele, caso precisasse de algo. Vizinho, eu salvei. Me desejou uma boa noite. Demos um beijo no rosto um do outro de um jeito meio desajeitado. Ele entrou. Fiquei observando a porta por alguns segundos antes de entrar, pensando que talvez nós merecêssemos mais tempo pra conversar…

De qualquer tipo, amor

Eu & Nós

Eu e nós rindo de tudo. Eu e nós dormindo na melhor conchinha, que é de três. Eu e nós tentando qualquer coisa que parece muito possível para mim, mas visivelmente insustentável para todas as outras pessoas do mundo – que nunca viram o quanto ficamos incrivelmente lindos juntos (isso vocês não podem negar).

Eu me exaltando em qualquer fala política enquanto um de vocês me acalma e o outro ri da minha ingenuidade por pensar que qualquer coisa dita bravamente muda o mundo.

Um de vocês segurando minha mão enquanto caminhamos até o cinema. Outro de vocês segurando a outra. Dois de vocês me olhando atentamente enquanto choro – de forma não comedida, tal como sou – no meio do filme de ação do ano.

Eu e nós fazendo planos.

Eu e nós com a barriga doendo de rir no meio da tarde de um dos domingos últimos. Eu contando uns segredos.

Dois de nós ouvindo atentamente um de vocês falar com propriedade sobre o cultivo das trufas e o quanto isso as torna especiais. Elas precisam de tempo.

Deveria ter contado antes que o objeto de desejo de um escritor ganha relicários sem pedir e que nunca é possível escrever muito sobre um mesmo amor.

Deveria ter contado que se eu não precisasse escrever, não viveria nenhum desses amores que me roubam o ar. Só vou até eles porque precisam ser escritos. Vocês dois precisavam ser escritos. Transcritos em cheiro, voz, calor. Cada um a seu modo.

Você com essa doçura de fada, fazendo tudo o que é doce te lembrar. Uma fada feita de leite e mel. E amor. 

Você com essa leveza e paciência pra vida, certo de poder segurar o mundo nas mãos. E podendo.

E o quanto um de vocês me fazia sentir a pessoa mais engraçada do mundo e o quanto um outro de vocês me fazia sentir a pessoa mais segura. E o quanto os dois juntos me fizeram sentir ridiculamente apaixonada.

Sem saber o que dizer, só posso sair delicadamente, como cheguei, e contar o que aprendi: vida é brincar de não desistir e ter paciência, porque tudo o que é valioso precisa de tempo.

Embora tenha feito uso adequado dos pronomes na escrita, sempre quis estar no nós.

Cartas e hipérboles, Despedidas, [+18]

Eu, dos seus males o menor [+18]

[Nós dois juntos nesse bar vazio, perdendo a conta de quantas cervejas dividimos. Uma noite quente demais para ser inverno. O efeito do álcool me torna cada vez mais permissiva aos seus toques sabidamente pretensiosos, mas também me faz precisar de muito mais atenção  na sua fala para entender e processar o que você diz.]

Tão mais lindas nos filmes, as despedidas. Os abraços nos aeroportos, os beijos apaixonados, as promessas de sei-lá-o-quê, os retornos. Tão mais lindas do que essa. Essa que começou junto com a gente… prevista, sabida, anunciada. Um milhão de vezes anunciada. Sofrida. Longa. Presente. Causam isso as despedidas todas? Retrospecto, nostalgia, grandes tristezinhas? Causam em mim, devo admitir, que carrego o gosto pelo drama e tudo em demasia, esagerata.

Atribuo esse amor muito intenso e muito triste, carregado de ironias e clichês, com textos e músicas e filmes à Vênus no meu mapa, em Escorpião. A você, crédito nenhum. Hoje doeu muito e eu não consigo nem te agradecer, como fiz algumas vezes. Se houvesse escolha, renunciaria cada segundo vivido até aqui só para não doer desse tanto.

Não espero que entenda, mas hoje eu não posso gostar de você.

[Baco Exu do Blues ecoando entre nós “morde minha pele pra abafar seu maior grito”, música alta. Mais alta do que o som da água muito quente do chuveiro batendo em minhas costas. Mais alta que o seu bramir de prazer enquanto eu estava ajoelhada diante de você no box do banheiro – já embaçado do nosso banho demorado – com as mãos para trás. A minha boca transbordando indecentemente seu gozo. O ar te faltando, sua boca entreaberta. Essa cena crivada em mim com trilha sonora “nosso problema sempre foi a intensidade, cê sabe que é verdade”. Uma foda animalesca, primitiva, desejosa e triste.

Não espero que se lembre de todos os detalhes assim como eu. É que o seu cheiro sempre demora mais para sair da minha pele do que o contrário.]

Não poder ligar só para dizer as coisas que se dizem em despedidas e nem poder dividir com você a dor dessa partida, não poder deixar doer me parece cruel demais para qualquer pessoa. Perverso demais para qualquer pessoa. Injusto demais, mesmo para mim. Não me obrigo a aguentar, por isso eu me perdoo por tanto choro e tanta reza. Por isso eu me desculpo por tanta tristeza e mau humor. E escrevo.

E em mim, que quase nada mais existe, procuro o desejo ínfimo de te ver feliz, da plateia mesmo, embora deteste o lugar. Eu detesto o lugar. Eu detesto ser plateia.

[Minha boca encostada na sua por um período maior do que o necessário. O Sol queimando nossa pele através dos vidros do carro, na frente do prédio. Nosso suor se misturando delicadamente pela última vez. O gosto desse hálito de despedida no último beijo. Últimas vezes.]

Essa dor dilacerante, que não tem nada de bonita como as outras, é lenha. Só a dor pura em estado bruto, sem lapidar. E dela não bota flor, nem água. É só dor de um jeito que nenhuma pessoa mereceria conhecer, nem mesmo eu, que tenho gosto. Falta ar. Falta muito.

[Atravessei a rua tão rápido quanto o possível, sem coragem ou forças para olhar para trás. Eu não te enxergaria, de qualquer modo. Esse olhar ressumado que você causa toda vez nunca me deixa vê-lo de verdade. O corpo em chamas de um jeito que não gostaria de sentir. Passos firmes até o hall, as mãos muito suadas apertando o botão incansavelmente, como se isso fizesse o elevador estar no térreo antes da primeira lágrima escapar de mim. Como se eu conseguisse segurar o choro de todos esses dias por mais um segundo.]

Se houver qualquer coisa para aprender com sua partida, espero que eu saiba aprender logo. Se houver qualquer coisa que possa me dizer sobre ela, espero que diga logo. Se eu pudesse dizer qualquer coisa sobre ela, repetiria o que te disse: nós estamos nos despedindo desde que nos conhecemos.

Cartas e hipérboles

Os olhos que passeiam sobre todas as mesas do bar

Será que entre todos esses risos e dentes existe alguém procurando alguém? Será que nenhuma dessas músicas é lembrança para outrem, além de mim? Só eu me sento aqui entre todas as pessoas mais felizes do mundo, mais inteligentes do mundo, mais interessantes do mundo e procuro por você, justamente por ser você? Ninguém percebe minha busca discreta. Eu olho todos os rostos enquanto levo copos e taças até a boca, respondo com alegria efusiva às perguntas de todos os amigos ao meu redor, brindo todas as vezes. Um milhão de brindes em uma noite. Rio exageradamente alto para uma piada sem tanta graça assim. As coisas todas não tem mais tanta graça assim.

Descanso os olhos sobre a mesa da frente, vejo todos os rostos do bar e os que passam borrados e felizes demais, embriagados de alegria ou cerveja ou solidão – não saberia dizer. Fico atenta à todas as vozes e assuntos, alguns poucos te deixariam interessado.  Eu esperava mesmo que você viesse por acaso. Esperava que o fluxo de energia gasto para pensar em você nas últimas semanas desencadeasse uma sucessão de acontecimentos para trazer você ao mesmo bar em que estou no sábado à noite e assim – só diante desse fato – eu acreditaria em destino. Esse ar ébrio me permite pensar que, se você viesse, alguns dos ensaios montados na minha mente teriam chance de tornarem-se possíveis (esses ensaios que você gosta de ler).

Se você abandonasse só por hoje esse digitar incessante de teses e artigos e me encontrasse aqui – por acaso, pelo destino ou por brincadeira do Universo – deixaria  pediria para você se sentar ao meu lado. Começaríamos uma daquelas conversas em que quase nos completamos – o que não são conversas de bar, mas que são possíveis em qualquer lugar, com você – e eu diria algo sobre como é triste entender minimamente o funcionamento e os sistemas de manutenção da sociedade pós-moderna e como o estado tem, gradativamente, reestabelecido o mecanicismo impactando diretamente na nossa forma de fazer e interpretar a arte, estabelecer laços e amar, você concordaria. E o seu hálito de cerveja carregaria referências, estatísticas e autores corroborando sua fala. Mais de uma vez durante a noite, tenho certeza, me sentiria perplexa diante da minha própria sorte por tê-lo reencontrado.

Beberíamos dos copos um do outro. Nos olharíamos silenciosamente por alguns segundos. Nós não nos beijaríamos, mas os nossos ombros e mãos se encostariam despretensiosamente, nenhuma pessoa daquelas poderia notar, seriam incapazes.

Teríamos ido para casa, transado ou não.

Poderia te ligar no domingo e passaríamos a tarde conversando para que eu pudesse te contar todas as coisas que preciso e para que você despejasse em mim todas as novidades que disse que tinha numa penúltima conversa. Sua voz seria a única coisa que eu ouviria por algumas horas, o que me faria esquecer a loucura das semanas que antecederam nosso reencontro e me deixaria menos triste por ter que existir. Você perguntaria se voltaríamos a nos ver.

Bem, eu diria que sim.

Parafraseando você mesmo, o que realmente não é justo com as memórias boas é o silêncio. Ele ocupa esse espaço imenso dos corredores barulhentos da faculdade enquanto eu caminho segura, fingindo estar incólume à sua ausência até, simplesmente, não mais estar. Ocupa festas e bares, a volta para casa numa embriaguez quase feliz. Ocupa os devaneios durante as leituras e os grifos que gostaria de te mostrar. Eu sou o próprio silêncio quando alguém me pergunta sobre você e me torno – mesmo com um acervo razoável de palavras no vocabulário – instantaneamente incapaz de formular resposta.

Em nenhum dos perfumes foi possível sentir seu cheiro. Sua voz não se sobrepôs à essa massa densa de conversas e risadas. O destino esqueceu da gente.

Não soube eu de nenhuma das novidades, não voltamos na feira para comer pamonha com queijo, nem andamos de bicicleta no fim da tarde do último domingo, não fomos ao observatório, nem voltamos na Paulista. Nós não andamos juntos pelos corredores largos do Ana Rosa. Eu andei só. Você não retornou à ligação e, desse lado da linha, eu começo a entender esses processos sobre os quais a gente tanto falou.

Todas as mínimas coisas vêm de um processo.

Os meus últimos processos, carregados de diacronia, tem essa sensação de que você está em mim quase sempre, mas nunca está comigo. Então, ligar a máquina de lavar muito tarde da noite porque é o único horário possível pra colocar as coisas em ordem, comprar livros cujos títulos te fariam rir muito, salvar muitas receitas de doces na pasta do Pinterest pra não cozinhar pra você, sentir falta daquele nosso baseado chá com música nas noites de sexta, pra relaxar, e olhar pra parte do sofá que te cabia é um processo. Todos os processos contando algo sobre a segunda vez que te amei e sobre todas as outras.

De qualquer tipo, amor, Diálogos

Santé

A gente poderia discutir com qualquer pessoa quais são as causas do abismo estratosférico entre classes e o quanto isso é desejável pela extrema direita, por dias, ad nauseam. Completaríamos os argumentos um do outro. Pensei nisso ontem a noite, enquanto estava no bar, observando o quanto as pessoas precisam falar o tempo todo. Lembrei de você dizendo que o silêncio torna a fala importante. A cerveja descendo goela abaixo, a saudade de você também. E eu em silêncio comigo, querendo ouvir seus elogios profusos e suas observações astutas e irônicas no meio do caos.

Poderíamos ter dançado mais vezes antes de fazer amor. Nosso brinde improvisado com um resto de vinho da minha geladeira não pedia conversa nenhuma. Tínhamos tempo. Você me servindo na única taça da casa e bebendo, displicentemente, direto da garrafa, o contorno da sua boca sedenta beijando o vinho gelado, quase posso sentir o gosto por você. Quase posso sentir seu gosto. O seu hálito de álcool me acendendo a verve, a sua fala segura e eloquente, a libido. A fala era dispensável. Enough.

Eu poderia ter feito menos alusões ao niilismo e ter te beijado muito mais vezes em público. Deveria ter segurado mais forte na sua mão enquanto caminhávamos na Paulista, só pra te mostrar que é bom ter alguém pra caminhar junto. E aí você poderia se soltar de mim mais devagar, pra eu entender, aos poucos, que você é mais feliz andando só.  Numa das nossas conversas de vozes roucas e mansas eu deveria ter dito que a sua pele era pra mim feito brilho de pérola escura e que eu não sei me desculpar. Fico ruminando as coisas não ditas, um tanto de desprazer.

Acho por bem dizer que eu ainda sorrio quando penso em você – como eu poderia te odiar? –  mas acho um desperdício imenso e irreparável disfarçar meus exageros, eu adoro colidir. Espero que me perdoe caso eu tenha me excedido com você, mas não espero por perdão nenhum pra continuar brindando. E se você nunca teve uma recaída – como me disse numa dessas nossas noites, soltando entredentes uma fumaça densa da janela do meu quarto pro céu, eu gostaria, verdadeiramente, de ser sua exceção.