Fogos

Você é festa na minha vida. Tudo em você brilha e queima, silenciosamente, mas eu ouço. Discretamente, mas eu vejo. Uma gama de fogos de artifício no êxtase de uma noite de ano novo no Rio de Janeiro. Você. O pôr do Sol deixando o céu laranja pra gente lembrar que a vida vale. Você, esse lugar de morar que — de acordo com o seu mapa astral —foi feito pra mim. A sua fala doce e efusiva contando da vida como se apresentasse um parque de diversões. Amando como se brincasse num parque de diversões. Você, todas as manhãs, chegando ou pedindo mais 5 minutinhos de cama. Tomando todas as cobertas pra si e todos os meus pensamentos no resto das horas do dia. Você com o fôlego do mundo, pedindo carinho. Morando no meu colo, me dando paz. Se existisse qualquer coisa sobre o amor que ainda não foi dita ou escrita, eu gostaria de dizer ou escrever a você. Pichar nos muros das cidades, colar nos outdors. Gritar nas ruas, do alto dos prédios. Sussurrar nos seus ouvidos. Viver a queima roupa todos os clichês e inventar novos e morrer de amor. Com você.

Bem-vinda

Levanta amor, já é a segunda vez que o seu despertador toca. Você vai atrasar. Eu também queria ficar mais, mas a gente aproveita a cama no fim de semana. Volta, amor. Vem mais cedo pra gente ir no cinema de quarta-feira a noite assistir um filme ruim, comer uma pipoca boa, cheia de sal, do jeito que você gosta. Vamos fazer aquelas coisas de casal, que todo o mundo faz. Uma vez na vida, caminhar no domingo de manhã. Andar de patins no estacionamento do shopping, dançar na chuva numa quinta á noite. Ver o pôr do Sol no observatório, de mãos dadas. Eu nunca quis, mas quero com você. A gente não precisa casar, mas pode morar junto. Não precisa de cerimônia pra começar a dividir mais do que uma gaveta, é aos poucos que aprendemos a dividir a vida. Eu prometo não brigar por qualquer coisa, te ensino a lidar comigo. Mas você vai precisar ficar. A gente faz acordos, divide a louça, escolhe o lado da cama, tira ” par ou ímpar” pra saber quem vai levar o Thor Theo pra passear. Vamos, amor… você vai atrasar. Não perde o nosso tempo porque a vida é uma só.

Eu te acompanho na cerveja, pode apostar. Leio sobre as coisas que você gosta (neuroanatomia funcional, hipotermia terapêutica) pra não faltar assunto, te faço carinho infinito, faço amor com você no sofá — na cama, no chão, na escadaria do prédio. Fico na ponta dos pés pra te beijar a testa. Amor, eu não deixo mais toalha molhada na cama e a gente pode assistir tudo Grey’s Anatomy dublado. Perrengue eu passo com você, também, pode confiar. Você sabe que eu não tenho frescura. Pra mim não tem tempo ruim. De tudo o que te ofereço, tenho uma prova de amor irrecusável: eu aprendo a cozinhar cozinho pra você. A gente faz memória juntas, viaja pra qualquer lugar. Faz mochilão, acampamento na praia, fim de semana em Campos, salto de bungee jump em SP. Vamos ” fazer mercado”? Faz isso ser divertido também, como você faz com todas as coisas. Eu deixo você dormir até mais tarde, prometo, não te chamo. Fico só olhando você respirar, me dando mais paz do que eu sonhei em ter um dia. Mas você deixa eu maratonar de madrugada aquela série ruim? Segura a minha mão(de novo) na dor das próximas dez tatuagens que quero fazer? Eu deixo você cuidar de mim, mas quero ser porto seguro pra você também.

Vamos, amor. Nossos amigos estão com saudade, a gente faz almoço de domingo pra eles, ri das histórias que eles contam. Amor, perdoa os plantões noturnos você pode sair dos plantões noturnos? Tem vidas para serem salvas durante o dia também! Continua ouvindo a mim como se entendesse todos os termos técnicos que envolvem cuidar dos outros projetos terapêuticos singulares pra pacientes bipolares. Já me adianto nas desculpas pelas camisetas suas que estraguei com ferro de passar gotinhas da tinta que pintamos o apartamento e também por só comprar pra você peças azuis sempre pedir pra você usar amarelo. Te acho linda de amarelo, e sem nada também. Principalmente sem nada. Amor, vem comigo. A gente faz as pequenas coisas valerem a pena, como fazemos desde sempre. Eu escrevo em silêncio enquanto você trabalha, não te atrapalho. Depois podemos dançar sozinhos na nossa sala (como a gente faz em qualquer lugar), comer brigadeiro de colher, fazer trilha na chuva, mergulho, escalada. A gente pula de paraquedas. Conversa de madrugada, faz os nossos jogos aleatórios, divide as partes ruins de nós, briga pra fazer amor depois, escolhe móveis, plantas, quadros, tapetes, uma bandeja pra eu te levar café na cama — coisa pouca, quero a casa assim como está: cheia (cheia, cheia) de amor . Tem tanta coisa pra nós na vida.

Te faço presentes pra guardar, com foto, bilhete, buquês, cartinhas, aquarelas. Me faço presente pra você. Essa casa vira um relicário, faço álbum, carta de amor, uma caixa de nós… queimando a ponta dos dedos com cola quente. Mesmo assim, você quer? Me ajuda a carregar as compras, vamos na feira de manhã, conversando durante a caminhada. Deixa tocar no carro a nossa playlist, enquanto fazemos o jantar e você me conta seu dia. Escolhe uma música pra ser nossa. Eu cuido das suas febres, alergias, mimo você sem precisar. Beijo os seus olhos pra você ver mais bonito, aguento suas crises existenciais e ainda sorrio sincero pra você. Amor, a gente faz isso mesmo quando ama. Podemos ser nós três: eu, você e o Thor Theo, felizes. Não é bom saber que alguém, em algum lugar, guarda você no coração? Eu te dou, então, essa certeza. Zelo por você, por sua felicidade… Te confio segredos e a missão de fechar meu vestido. Abri-lo também. Vem, amor, porque mesmo sem te conhecer, eu já sinto saudade mesmo tendo demorado, eu sabia que viria. Não atrasa. Levanta, amor, o café tá pronto, hoje é domingo e a gente tem o dia (e a vida toda) pra viver…

[ A versão origina desse texto foi escrita em 2016 sem pretensões reais de viver essa história que tem se concretizado, hoje, nesses mesmos (e grandiosos) detalhes. O amor acontece no tempo dele e a espera vale a pena.]

Outras

Enquanto te escrevo, penso nos aspectos intrínsecos da língua francesa ou no quanto o modelo neoliberal corrói ostensivamente o resto de humanidade que ainda existe em nós  — em todos, em qualquer um que é pessoa. Gostaria de dividir com você aquele calor que emana do meu corpo embaixo das cobertas em um domingo a tarde e te proporciona um conforto animal (é disso que você sente falta às vezes?), depois, passear a língua no teu corpo todo e dançar com você por todo o apartamento sentindo o vinho recém-consumido esvaindo-se por nossos poros e hálitos. Gostaria de ouvir você rindo. Mais uma vez. 

Enquanto te escrevo, lembro-me do quanto me mostrava pra você como alma ou como corpo e do quanto foi miseravelmente inútil tentar te explicar o que cada uma dessas coisas é pra mim. Eu me fiz translúcida pra você me ver.

Enquanto te escrevo, meus dedos recordam os caminhos que fizeram pelo seu corpo, o tecido fino e quente que comporta todos os seus órgãos parece latejar agora mesmo sob meu tato.  Me lembro, enquanto te escrevo, de muitas vezes ter ouvido, atenta, suas afirmações sobre o quanto sistema atual inóspito pro meu sonho de viver na estrada, pra minha vontade de não usar plástico, pra minha aspiração ao veganismo e te aborrecer muito rapidamente — em seguida — com a minha insistência em cada uma dessas coisas. 

Enquanto te escrevo eu leio. Lionel Shriver. Carmen Laforet. Pâmela Druckerman. Aprendo a pintar. Me estico dentro de mim, como se fosse essência, ocupando cada milímetro meu. Enquanto te escrevo, escrevo mais. Sobre aquele outro cara que tem deixado umas roupas na gaveta. E sobre morte. Sobre gozo. E sobre coisas que você não sabe. 

Enquanto te escrevo me transformo em outra. Em outras. Aprendo a escolher a gramatura dos papéis. Pinto paredes. Aprendo a cozinhar. Me torno, aos poucos, esse lugar que você nunca morou.

Minha pele tem esse gosto novo que você adoraria provar. Te espero ligar pedindo pra me comer com as mãos. Lamber os dedos. Beber de mim. 

Te espero ligar para — se eu tiver vontade —  te dizer que sim.  

Disposições

Eu me disponho a ficar. Me disponho a fazer as coisas que eu nunca quis e agora quero, com você.

Atravesso a rua com você. O país. O Continente. Arrumo passaportes, permissões, aprendo idiomas. Fico no chão da sala o domingo todo te fazendo carinho. Reviso todo o conteúdo de bioquímica pra acompanhar minimamente seu raciocínio. Refaço planos e rotas. Acrescento destinos. 

Faço a gente de segredo ou te recito poemas com seu nome, aos berros. De cima dos prédios, na Avenida Paulista. No seu ouvido. 

Ouço seus relatos, seus diagnósticos, suas evoluções, suas intervenções, seus projetos terapêuticos. Seus sonhos, seus medos. Não que você precise, mas, amor, eu me disponho. Comemoro suas conquistas com vinho ou cerveja.  Perto ou à distância. A gente vai pra São Paulo ou  pra Pernambuco. A gente é ficante, casada, mora junto ou separadas – o que você quiser. Me reservo o direito de querer ser sempre sua amiga e de te ter confidente.

Falo de você pro mundo, te exibo pros outros. Espero você voltar, depois de salvar o mundo, pra te despir pra mim. Com os olhos, com a boca. No hipocampo.

Eu mergulho até onde der, aprendo a nadar. Amor, eu te dou pé. Pulo muros com você. Construo pontes pra te ver. Corro da polícia (ou do segurança do shopping) pra ver você gargalhar. Pra ouvir teu riso ecoar no estacionamento vazio. Pra sentir teu riso ecoando na minha caixa torácica.

Faço silêncio pra você estudar. Encontro palavras pra completar suas frases. Caminho com você essa trilha que é viver. Solto da sua mão só pra te aplaudir.

Eu vou mais rápido ou mais devagar pra você respirar. Nem sua asma vai parar a gente. Amor, eu prometo ser ninho, carinho, aconchego. Compenso seu baixo débito cardíaco, te mantenho quente, mesmo nua.

Amor, quero que você fique sem corrente nem amarras, a algema só se você quiser. Beijo seus olhos e ombros pra te dizer que eu te amo sim e que o mundo é pra duas. O mundo é pra nós. 

Eu te ensino o que eu sei e eu aprendo tudo o que você quiser me ensinar. Amor, eu prometo: não esqueço mais os parâmetros do desequilíbrio eletrolítico nem os sintomas dos efeitos neuroglicopênicos. Mas vai ter sempre alguma outra coisa pra você me explicar, nem que seja só pra ficar te olhando falar, falar… eu me disponho.

Você

Você me faz querer escrever. 

Me faz querer ouvir Caetano. E eu nunca gostei do Caetano. 

Me faz falhar a voz, e eu sempre falei muito bem. 

E você sabe disso.

Você me faz querer escrever.

Você me faz falar sobre política só pra simplesmente te ouvir defender algo em que acredita.

E eu amo isso. 

Você me faz querer escrever.

Você me faz querer beber vinho ou comprar vinho e falar sobre vinho (??!). Eu nem gosto muito de vinho.

Me faz querer comer pizza da Marcante, só pra dizer o quanto você está certa sobre ser a melhor do mundo.

Me faz querer encontrar diversas maneiras pra te explicar a fisiologia do filtrar ou excretar.

Você me faz querer escrever.

Me faz única quando compartilha músicas e vídeos engraçados que encontra por aí. 

Me faz linda quando olha atentamente por meu cristalino e íris, mesmo quando não falo nada com o que há (?) de se importar.

Você me faz querer escrever.

Me faz querer sorrir enquanto choro. E eu sempre estou chorando (?). 

Me faz querer compartilhar pequenos segredos, mesmo sendo o simples fato de nunca (talvez) ter tido a oportunidade de amar.

Você me faz querer amar. E escrever. 

Mas quem ama e escreve intensamente é você. 

Você.

Embora eu não saiba usar muito bem as palavras,

Você me faz querer escrever sobre você.


Por Gabriele Gouveia.

O seu jeito de dizer “eu te amo”

Conheceram-se no inverno, era meio de agosto. Heitor foi convidado para uma festa de despedida de um dos colegas do trabalho que fora transferido para a Bélgica e partiria em breve. Elisa também foi convidada. Fazia freelas como fotógrafa em festas de conhecidos, o valor da bolsa do Mestrado não cobria totalmente seus gastos. Fez algumas fotos de Heitor e Débora, sua esposa. Entregou um cartão de contato e continuou os registros. Encontrou Heitor alguns minutos depois, enquanto pegavam bebida. Transaram no lavabo do segundo andar. Desde então, nunca pararam de se encontrar. Elisa era treze anos mais nova que Heitor, veio da Capital cursar Mestrado em História do Jornalismo no interior. Retornaria assim que defendesse sua tese. Passaria incólume a olhares lascivos,  não fosse um sorriso de dentes grandes e sua altura, um pouco acima da média das demais mulheres. Usava o cabelo preto e curto, à altura do ombro, com a franja quase sempre bagunçada. Poderia ser descrita como espirituosa. Heitor visitava Elisa em seu apartamento com frequência. Religiosamente aos domingos, em que usava a desculpa de participar do grupo de ciclismo para passar o dia todo fora e, às vezes às quartas ou quintas, usando como desculpa reuniões de trabalho.

Era recebido sempre com uma discreta efusividade, subiam as escadas já aos beijos. Nem sempre transavam. Mantinham essa relação secreta há quase três anos, conquanto não eram infelizes. Elisa terminaria em breve o Mestrado, retornaria para a Capital e já havia recebido duas ou três propostas de emprego. Nenhum grande problema financeiro, nenhum relacionamento traumático. Tinha o check-list da felicidade quase que completo. Heitor era profissionalmente realizado e sustentava um casamento feliz. Viajava regularmente com a esposa, tinham boas conversas, o sexo era bom, as coisas eram boas. Aconteceu que, com Elisa, ele tivera os diálogos mais profundos e extensos da sua vida. O sexo mais intenso. Não o mais gostoso, mas com certeza o mais intenso. Conversavam por horas, enquanto Heitor preparava o almoço ou o jantar.  Elisa não cozinhava tão bem quanto ele,  então detinha-se a arrumar os pratos e lavar a louça enquanto refutava de forma muito embasada qualquer argumento do qual discordasse. Heitor quase sempre cedia, muitas vezes porque ela realmente estava certa e outras, porque queria transar em vez de conversar. Falavam de filmes e dos países que Heitor já conhecia e Elisa ainda não. Comiam frutas enquanto dançavam jazz descalços na sala. Faziam amor na cadeira. No sofá. Em pé, ao lado da porta. Dormiam um sono pesado. Às vezes Elisa não dormia, apenas observava a respiração do cúmplice, densa, sonora. Sentia como se realmente existisse algo no mundo que pudesse considerar valioso, importante. Às vezes quem fazia isso era Heitor. Passava os dedos contornando os traços do rosto dela. Parada assim, como quase nunca ficava, respirando tão densamente, poderia ser um quadro de Vemeer — ele pensava. Nunca diria isso. Ela discordaria. Gostaria de ser comparada com um quadro de Klimt, intenso, vivo.

Heitor não tinha vontade de reclamar de coisas como a burocracia infernal dos bancos e o baixo retorno das aplicações. Essas coisas pareciam muitíssimo insignificantes diante das outras coisas que poderia dizer a ela. A vida nesse curto espaço de tempo mostrava-se grandiloquente. Urgente. Sanguínea. Elisa perguntava o que Heitor pensava de Philip Roth e se, não obtivesse o que gostaria de ouvir  como resposta (porque Elisa sabia-se como dona da razão, de um jeito não esnobe — gostaria de dizer), começava a explicar, com seus grandes dentes à mostra, toda a influência e qualidade judia inerente ao romancista. Tinha um sorriso de quem é dona do mundo.  Articulava as mãos e mexia seus dedos finos enquanto usava palavras como” corroboram”,  ” conseguinte”, “especificidades”.  Falava mesmo com a boca cheia de frutas — signo gêmeos —, o que obrigava Heitor a beijá-la no meio de uma frase. Sentavam-se um no colo do outro, deitavam no tapete da sala. Pareciam um grande emaranhado de mãos, pernas, cabelos, teorias existencialistas, discussões exaustivas sobre neoliberalismo, sexo barulhento com tapas e mordidas. Carinho silencioso com o corpos tesos e quentes. Elisa não queria nada. Não desejava que Heitor a amasse de forma diferente do que ele fazia, nem que terminasse o casamento, nem que vivesse com ela. Não desejava conhecer o mundo com ele, mas gostaria de conhecer o mundo sozinha. E voltar para esse lugar em que poderia narrar todas as suas histórias, com a boca cheia de frutas, enquanto ele passaria suas mãos grandes nos seus joelhos e coxas. Esse lugar que era uma pessoa.
Hoje haviam bebido vinho na mesma taça, riram suas risadas feias, falaram palavrões. Discutiram os becos intelectuais das religiões, ficaram em silêncio apreciando a companhia um do outro. Heitor trouxe um bloco de papel com gramatura para as pinturas de Elisa. Ele aprendeu a comprar papéis. Ela aprendeu a cozinhar. Pintaram desenhos feios juntos. Fizeram amor. O domingo precisava acabar, despediram-se. Heitor esqueceu o relógio no braço do sofá, Elisa voltou ao apartamento para buscar. Atravessou a rua mais distraída do que o acaso costuma tolerar.

O som maciço da lataria encontrando o corpo magro de Elisa é que pareceu a ter matado. Heitor, que não sabia pensar nem sentir, lembrou o quanto barulhos altos a incomodavam. Ela morreu de susto com esse barulho — concluiu. O Sol parecia mais forte do que em qualquer outro dia. Estava ajoelhado no asfalto quente mas não sentia sua pele derreter. Era primavera e a rua parecia um tapete gigantesco de flores amarelas. Eram as flores dos ipês. O relógio eletrônico que ficava no cruzamento alternava entre o horário e a temperatura, 31°C. Elisa tinha o cabelo preto e liso grudado no suor e no sangue em sua testa e pescoço. Um tanto de flores sujas e amassadas colavam no sangue em volta do corpo quase sem cor.
Heitor passou os braços por baixo dos ombros dela, tirando as flores de ipê e beijando sua têmpora com cuidado. Ainda com um gosto de ferro na língua, sussurrou no ouvido de Elisa ” Você parece um quadro de Klimt “.

Feliz como era…

Como há de ser feliz agora
Sob a terra?
Se os olhos não vêem mais a cor do batom no espelho
Vermelho
Se as luzes não refletem mais o brilho dos anéis
todos em seus dedos

Como há de ser feliz agora
Se não sente calor nem frio
Se o corpo que é matéria  não transita
Nem abraça
Não adoece nem se cura
Decompõe

Como há de ficar triste agora
Se escolhi seu batom preferido
E o relógio que sempre usara
E o seu corpo será pra sempre esse
Jovem e feliz

Como há de ficar triste agora
Se cuidei de trazer meias
E as flores que mais gosta
Se fiz tudo o que sabia pra te agradar

Não fique triste agora
Nenhuma agulha te rasga a pele
Nenhum tubo te atravessa
Você pode descansar

Bonnie & Clyde

Em vez de fazer coisas e sorrir, escrever, correr pelas ruas dessa cidade em que todos os dias são domingo, dançar, cozinhar, grifar com outras cores livros velhos em partes já grifadas, ligar pra sua mãe, assistir Bonnie e Clyde mais uma (décima oitava) vez, esfregar os azulejos do banheiro até que o cheiro da água sanitária impregnasse o sistema nervoso central, repassar o diagrama de Wiggers, estudar o sistema renal, marcar coisas na agenda, limitava-se a chorar. Tinha a companhia de uma insatisfação, eventualmente, que era quase uma pessoa. Tivesse olhos, seriam pretos feito jabuticabas e a pele seria translúcida, gélida. Tivesse boca, sorriria intimamente e ironicamente como se guardasse um segredo. Nos dias ruins era sacudida pelos próprios soluços e secava as têmporas com as costas das mãos, inutilmente.

Lembrava de (ter podido) olhar os poros abertos no rosto dele, que, de pertinho, pareciam pequenas crateras. Lembrava de poder antes tocá-las. E chorava. Não porque sentia fome de tocar a pele dele novamente, mas também porque sentia. Não porque pensava que, por ele, seria capaz de ignorar o fato de que amar alguém é uma construção social articulada para manutenção do sistema econômico através do ideal de amor romântico, mas também porque pensava. Chorava mais pela guerra insaciável no Oriente Médio e indisponibilidade governamental para lidar com as mães em situação de rua e seus filhos. Quando parava de soluçar, mantinha os olhos ressumados pelos dramas com muitos diálogos que exploram a condição humana, orbitando em sua mente.

E nos dias em que fazia coisas e sorria, escrevia, corria pelas ruas dessa cidade em que todos os dias são domingo, dançava, cozinhava, grifava com outras cores livros velhos em partes já grifadas, ligava pra sua mãe, assistia Bonnie e Clyde mais uma (décima nona) vez, esfregava os azulejos do banheiro até que o cheiro da água sanitária impregnasse o sistema nervoso central, repassava o diagrama de Wiggers, estudava o sistema renal, marcava coisas na agenda, esticava-se no sofá, repetia frases soltas em francês, sentia a luz do sol que entrava pela sacada tocando sua pele, comprava frutas no mercado, bebia água, não limitava-se a nada.

Via da janela a cidade crescendo, brindando com fel a beleza das faces pálidas, olhava as luzes. Entendia que viver também é isso. E chorava. Não porque se sentia imensamente feliz  por correr pelas ruas dessa cidade em que todos os dias são domingo e voltar pra casa com o corpo quente e vivo, mas também porque se sentia. Chorava de feliz porque lembrava de (ter podido) olhar os poros abertos no rosto dele, que, de pertinho, pareciam pequenas crateras. Lembrava de poder antes tocá-las. E secava as têmporas com as pontas dos dedos que um dia passearam pelos poros abertos no rosto dele, que…

 


“ Você tem estado dentro de mim, desde então, de formas que podem ser eroticamente descritas ou metaforicamente descritas. Essa é uma delas.”