Outras

Enquanto te escrevo, penso nos aspectos intrínsecos da língua francesa ou no quanto o modelo neoliberal corrói ostensivamente o resto de humanidade que ainda existe em nós  — em todos, em qualquer um que é pessoa. Gostaria de dividir com você aquele calor que emana do meu corpo embaixo das cobertas em um domingo a tarde e te proporciona um conforto animal (é disso que você sente falta às vezes?), depois, passear a língua no teu corpo todo e dançar com você por todo o apartamento sentindo o vinho recém-consumido esvaindo-se por nossos poros e hálitos. Gostaria de ouvir você rindo. Mais uma vez. 

Enquanto te escrevo, lembro-me do quanto me mostrava pra você como alma ou como corpo e do quanto foi miseravelmente inútil tentar te explicar o que cada uma dessas coisas é pra mim. Eu me fiz translúcida pra você me ver.

Enquanto te escrevo, meus dedos recordam os caminhos que fizeram pelo seu corpo, o tecido fino e quente que comporta todos os seus órgãos parece latejar agora mesmo sob meu tato.  Me lembro, enquanto te escrevo, de muitas vezes ter ouvido, atenta, suas afirmações sobre o quanto sistema atual inóspito pro meu sonho de viver na estrada, pra minha vontade de não usar plástico, pra minha aspiração ao veganismo e te aborrecer muito rapidamente — em seguida — com a minha insistência em cada uma dessas coisas. 

Enquanto te escrevo eu leio. Lionel Shriver. Carmen Laforet. Pâmela Druckerman. Aprendo a pintar. Me estico dentro de mim, como se fosse essência, ocupando cada milímetro meu. Enquanto te escrevo, escrevo mais. Sobre aquele outro cara que tem deixado umas roupas na gaveta. E sobre morte. Sobre gozo. E sobre coisas que você não sabe. 

Enquanto te escrevo me transformo em outra. Em outras. Aprendo a escolher a gramatura dos papéis. Pinto paredes. Aprendo a cozinhar. Me torno, aos poucos, esse lugar que você nunca morou.

Minha pele tem esse gosto novo que você adoraria provar. Te espero ligar pedindo pra me comer com as mãos. Lamber os dedos. Beber de mim. 

Te espero ligar para — se eu tiver vontade —  te dizer que sim.  

Disposições

Eu me disponho a ficar. Me disponho a fazer as coisas que eu nunca quis e agora quero, com você.

Atravesso a rua com você. O país. O Continente. Arrumo passaportes, permissões, aprendo idiomas. Fico no chão da sala o domingo todo te fazendo carinho. Reviso todo o conteúdo de bioquímica pra acompanhar minimamente seu raciocínio. Refaço planos e rotas. Acrescento destinos. 

Faço a gente de segredo ou te recito poemas com seu nome, aos berros. De cima dos prédios, na Avenida Paulista. No seu ouvido. 

Ouço seus relatos, seus diagnósticos, suas evoluções, suas intervenções, seus projetos terapêuticos. Seus sonhos, seus medos. Não que você precise, mas, amor, eu me disponho. Comemoro suas conquistas com vinho ou cerveja.  Perto ou à distância. A gente vai pra São Paulo ou  pra Pernambuco. A gente é ficante, casada, mora junto ou separadas – o que você quiser. Me reservo o direito de querer ser sempre sua amiga e de te ter confidente.

Falo de você pro mundo, te exibo pros outros. Espero você voltar, depois de salvar o mundo, pra te despir pra mim. Com os olhos, com a boca. No hipocampo.

Eu mergulho até onde der, aprendo a nadar. Amor, eu te dou pé. Pulo muros com você. Construo pontes pra te ver. Corro da polícia (ou do segurança do shopping) pra ver você gargalhar. Pra ouvir teu riso ecoar no estacionamento vazio. Pra sentir teu riso ecoando na minha caixa torácica.

Faço silêncio pra você estudar. Encontro palavras pra completar suas frases. Caminho com você essa trilha que é viver. Solto da sua mão só pra te aplaudir.

Eu vou mais rápido ou mais devagar pra você respirar. Nem sua asma vai parar a gente. Amor, eu prometo ser ninho, carinho, aconchego. Compenso seu baixo débito cardíaco, te mantenho quente, mesmo nua.

Amor, quero que você fique sem corrente nem amarras, a algema só se você quiser. Beijo seus olhos e ombros pra te dizer que eu te amo sim e que o mundo é pra duas. O mundo é pra nós. 

Eu te ensino o que eu sei e eu aprendo tudo o que você quiser me ensinar. Amor, eu prometo: não esqueço mais os parâmetros do desequilíbrio eletrolítico nem os sintomas dos efeitos neuroglicopênicos. Mas vai ter sempre alguma outra coisa pra você me explicar, nem que seja só pra ficar te olhando falar, falar… eu me disponho.

Você

Você me faz querer escrever. 

Me faz querer ouvir Caetano. E eu nunca gostei do Caetano. 

Me faz falhar a voz, e eu sempre falei muito bem. 

E você sabe disso.

Você me faz querer escrever.

Você me faz falar sobre política só pra simplesmente te ouvir defender algo em que acredita.

E eu amo isso. 

Você me faz querer escrever.

Você me faz querer beber vinho ou comprar vinho e falar sobre vinho (??!). Eu nem gosto muito de vinho.

Me faz querer comer pizza da Marcante, só pra dizer o quanto você está certa sobre ser a melhor do mundo.

Me faz querer encontrar diversas maneiras pra te explicar a fisiologia do filtrar ou excretar.

Você me faz querer escrever.

Me faz única quando compartilha músicas e vídeos engraçados que encontra por aí. 

Me faz linda quando olha atentamente por meu cristalino e íris, mesmo quando não falo nada com o que há (?) de se importar.

Você me faz querer escrever.

Me faz querer sorrir enquanto choro. E eu sempre estou chorando (?). 

Me faz querer compartilhar pequenos segredos, mesmo sendo o simples fato de nunca (talvez) ter tido a oportunidade de amar.

Você me faz querer amar. E escrever. 

Mas quem ama e escreve intensamente é você. 

Você.

Embora eu não saiba usar muito bem as palavras,

Você me faz querer escrever sobre você.


Por Gabriele Gouveia.

O seu jeito de dizer “eu te amo”

Conheceram-se no inverno, era meio de agosto. Heitor foi convidado para uma festa de despedida de um dos colegas do trabalho que fora transferido para a Bélgica e partiria em breve. Elisa também foi convidada. Fazia freelas como fotógrafa em festas de conhecidos, o valor da bolsa do Mestrado não cobria totalmente seus gastos. Fez algumas fotos de Heitor e Débora, sua esposa. Entregou um cartão de contato e continuou os registros. Encontrou Heitor alguns minutos depois, enquanto pegavam bebida. Transaram no lavabo do segundo andar. Desde então, nunca pararam de se encontrar. Elisa era treze anos mais nova que Heitor, veio da Capital cursar Mestrado em História do Jornalismo no interior. Retornaria assim que defendesse sua tese. Passaria incólume a olhares lascivos,  não fosse um sorriso de dentes grandes e sua altura, um pouco acima da média das demais mulheres. Usava o cabelo preto e curto, à altura do ombro, com a franja quase sempre bagunçada. Poderia ser descrita como espirituosa. Heitor visitava Elisa em seu apartamento com frequência. Religiosamente aos domingos, em que usava a desculpa de participar do grupo de ciclismo para passar o dia todo fora e, às vezes às quartas ou quintas, usando como desculpa reuniões de trabalho.

Era recebido sempre com uma discreta efusividade, subiam as escadas já aos beijos. Nem sempre transavam. Mantinham essa relação secreta há quase três anos, conquanto não eram infelizes. Elisa terminaria em breve o Mestrado, retornaria para a Capital e já havia recebido duas ou três propostas de emprego. Nenhum grande problema financeiro, nenhum relacionamento traumático. Tinha o check-list da felicidade quase que completo. Heitor era profissionalmente realizado e sustentava um casamento feliz. Viajava regularmente com a esposa, tinham boas conversas, o sexo era bom, as coisas eram boas. Aconteceu que, com Elisa, ele tivera os diálogos mais profundos e extensos da sua vida. O sexo mais intenso. Não o mais gostoso, mas com certeza o mais intenso. Conversavam por horas, enquanto Heitor preparava o almoço ou o jantar.  Elisa não cozinhava tão bem quanto ele,  então detinha-se a arrumar os pratos e lavar a louça enquanto refutava de forma muito embasada qualquer argumento do qual discordasse. Heitor quase sempre cedia, muitas vezes porque ela realmente estava certa e outras, porque queria transar em vez de conversar. Falavam de filmes e dos países que Heitor já conhecia e Elisa ainda não. Comiam frutas enquanto dançavam jazz descalços na sala. Faziam amor na cadeira. No sofá. Em pé, ao lado da porta. Dormiam um sono pesado. Às vezes Elisa não dormia, apenas observava a respiração do cúmplice, densa, sonora. Sentia como se realmente existisse algo no mundo que pudesse considerar valioso, importante. Às vezes quem fazia isso era Heitor. Passava os dedos contornando os traços do rosto dela. Parada assim, como quase nunca ficava, respirando tão densamente, poderia ser um quadro de Vemeer — ele pensava. Nunca diria isso. Ela discordaria. Gostaria de ser comparada com um quadro de Klimt, intenso, vivo.

Heitor não tinha vontade de reclamar de coisas como a burocracia infernal dos bancos e o baixo retorno das aplicações. Essas coisas pareciam muitíssimo insignificantes diante das outras coisas que poderia dizer a ela. A vida nesse curto espaço de tempo mostrava-se grandiloquente. Urgente. Sanguínea. Elisa perguntava o que Heitor pensava de Philip Roth e se, não obtivesse o que gostaria de ouvir  como resposta (porque Elisa sabia-se como dona da razão, de um jeito não esnobe — gostaria de dizer), começava a explicar, com seus grandes dentes à mostra, toda a influência e qualidade judia inerente ao romancista. Tinha um sorriso de quem é dona do mundo.  Articulava as mãos e mexia seus dedos finos enquanto usava palavras como” corroboram”,  ” conseguinte”, “especificidades”.  Falava mesmo com a boca cheia de frutas — signo gêmeos —, o que obrigava Heitor a beijá-la no meio de uma frase. Sentavam-se um no colo do outro, deitavam no tapete da sala. Pareciam um grande emaranhado de mãos, pernas, cabelos, teorias existencialistas, discussões exaustivas sobre neoliberalismo, sexo barulhento com tapas e mordidas. Carinho silencioso com o corpos tesos e quentes. Elisa não queria nada. Não desejava que Heitor a amasse de forma diferente do que ele fazia, nem que terminasse o casamento, nem que vivesse com ela. Não desejava conhecer o mundo com ele, mas gostaria de conhecer o mundo sozinha. E voltar para esse lugar em que poderia narrar todas as suas histórias, com a boca cheia de frutas, enquanto ele passaria suas mãos grandes nos seus joelhos e coxas. Esse lugar que era uma pessoa.
Hoje haviam bebido vinho na mesma taça, riram suas risadas feias, falaram palavrões. Discutiram os becos intelectuais das religiões, ficaram em silêncio apreciando a companhia um do outro. Heitor trouxe um bloco de papel com gramatura para as pinturas de Elisa. Ele aprendeu a comprar papéis. Ela aprendeu a cozinhar. Pintaram desenhos feios juntos. Fizeram amor. O domingo precisava acabar, despediram-se. Heitor esqueceu o relógio no braço do sofá, Elisa voltou ao apartamento para buscar. Atravessou a rua mais distraída do que o acaso costuma tolerar.

O som maciço da lataria encontrando o corpo magro de Elisa é que pareceu a ter matado. Heitor, que não sabia pensar nem sentir, lembrou o quanto barulhos altos a incomodavam. Ela morreu de susto com esse barulho — concluiu. O Sol parecia mais forte do que em qualquer outro dia. Estava ajoelhado no asfalto quente mas não sentia sua pele derreter. Era primavera e a rua parecia um tapete gigantesco de flores amarelas. Eram as flores dos ipês. O relógio eletrônico que ficava no cruzamento alternava entre o horário e a temperatura, 31°C. Elisa tinha o cabelo preto e liso grudado no suor e no sangue em sua testa e pescoço. Um tanto de flores sujas e amassadas colavam no sangue em volta do corpo quase sem cor.
Heitor passou os braços por baixo dos ombros dela, tirando as flores de ipê e beijando sua têmpora com cuidado. Ainda com um gosto de ferro na língua, sussurrou no ouvido de Elisa ” Você parece um quadro de Klimt “.

Feliz como era…

Como há de ser feliz agora
Sob a terra?
Se os olhos não vêem mais a cor do batom no espelho
Vermelho
Se as luzes não refletem mais o brilho dos anéis
todos em seus dedos

Como há de ser feliz agora
Se não sente calor nem frio
Se o corpo que é matéria  não transita
Nem abraça
Não adoece nem se cura
Decompõe

Como há de ficar triste agora
Se escolhi seu batom preferido
E o relógio que sempre usara
E o seu corpo será pra sempre esse
Jovem e feliz

Como há de ficar triste agora
Se cuidei de trazer meias
E as flores que mais gosta
Se fiz tudo o que sabia pra te agradar

Não fique triste agora
Nenhuma agulha te rasga a pele
Nenhum tubo te atravessa
Você pode descansar

Bonnie & Clyde

Em vez de fazer coisas e sorrir, escrever, correr pelas ruas dessa cidade em que todos os dias são domingo, dançar, cozinhar, grifar com outras cores livros velhos em partes já grifadas, ligar pra sua mãe, assistir Bonnie e Clyde mais uma (décima oitava) vez, esfregar os azulejos do banheiro até que o cheiro da água sanitária impregnasse o sistema nervoso central, repassar o diagrama de Wiggers, estudar o sistema renal, marcar coisas na agenda, limitava-se a chorar. Tinha a companhia de uma insatisfação, eventualmente, que era quase uma pessoa. Tivesse olhos, seriam pretos feito jabuticabas e a pele seria translúcida, gélida. Tivesse boca, sorriria intimamente e ironicamente como se guardasse um segredo. Nos dias ruins era sacudida pelos próprios soluços e secava as têmporas com as costas das mãos, inutilmente.

Lembrava de (ter podido) olhar os poros abertos no rosto dele, que, de pertinho, pareciam pequenas crateras. Lembrava de poder antes tocá-las. E chorava. Não porque sentia fome de tocar a pele dele novamente, mas também porque sentia. Não porque pensava que, por ele, seria capaz de ignorar o fato de que amar alguém é uma construção social articulada para manutenção do sistema econômico através do ideal de amor romântico, mas também porque pensava. Chorava mais pela guerra insaciável no Oriente Médio e indisponibilidade governamental para lidar com as mães em situação de rua e seus filhos. Quando parava de soluçar, mantinha os olhos ressumados pelos dramas com muitos diálogos que exploram a condição humana, orbitando em sua mente.

E nos dias em que fazia coisas e sorria, escrevia, corria pelas ruas dessa cidade em que todos os dias são domingo, dançava, cozinhava, grifava com outras cores livros velhos em partes já grifadas, ligava pra sua mãe, assistia Bonnie e Clyde mais uma (décima nona) vez, esfregava os azulejos do banheiro até que o cheiro da água sanitária impregnasse o sistema nervoso central, repassava o diagrama de Wiggers, estudava o sistema renal, marcava coisas na agenda, esticava-se no sofá, repetia frases soltas em francês, sentia a luz do sol que entrava pela sacada tocando sua pele, comprava frutas no mercado, bebia água, não limitava-se a nada.

Via da janela a cidade crescendo, brindando com fel a beleza das faces pálidas, olhava as luzes. Entendia que viver também é isso. E chorava. Não porque se sentia imensamente feliz  por correr pelas ruas dessa cidade em que todos os dias são domingo e voltar pra casa com o corpo quente e vivo, mas também porque se sentia. Chorava de feliz porque lembrava de (ter podido) olhar os poros abertos no rosto dele, que, de pertinho, pareciam pequenas crateras. Lembrava de poder antes tocá-las. E secava as têmporas com as pontas dos dedos que um dia passearam pelos poros abertos no rosto dele, que…

 


“ Você tem estado dentro de mim, desde então, de formas que podem ser eroticamente descritas ou metaforicamente descritas. Essa é uma delas.”

Je te remercie, la vie

A Lua em Netuno me deixa em paz na minha superficialidade. Não propõe reflexões paradoxais profundas. Não condena as minhas leituras fúteis, como Ottessa Moshfegh, enquanto o mundo colapsa mais rapidamente do que o previsto, antes do planejado. A Lua em Netuno tira o foco do amor romântico e deixa que amemos o produto do amor, a arte. E então, é possível, muito mais facilmente do que quando a Lua está em Vênus, descrever a arte não sôfrega. É possível dizer, portanto, sem nenhum julgamento, o quanto foi imensamente prazeroso comprar duas garrafas de vinho muito barato no mercado e bebê-las sozinha —  porque é como fazemos as coisas agora —, a primeira na taça, a segunda direto da botelha, o quê me levou até aquele ponto exato em que nos sentimos levemente felizes apesar de. A Lua em Netuno permite essa felicidade fulgaz, idiota. O final de uma segunda garrafa de vinho barato quando a Lua está em Netuno faz a gente acreditar numa sensualidade cinematográfica. Eu dancei Imported muitas vezes. Sem coreografia. Sentia a música passando pela minha corrente sanguínea. O meu cabelo, que agora parece ter crescido mais do que o normal nos últimos dias, colava no suor do meu pescoço e na testa. Eu tinha hálito de vinho e  o meu último banho exalava pelos poros. Evaporava. Fiquei excitada comigo. Me masturbei no sofá, só a luz das janelas vizinhas quebravam a penumbra da sala. Gozei duas vezes. Talvez eu tenha pensado em algo relevante alguns segundos antes de mergulhar no subconsciente. Acho que agradeci por estar disposta, quando a Lua se alinhar em outras quadraturas, a ser incomodada pelo sofrimento alheio.

Todas as coisas que eu precisava fazer de novo ou nunca mais

Cheirar seu cabelo como se fosse a última porção de oxigênio disponível. Beijar seus olhos, sentir seu cílios claros encostando nos meus lábios. Beijar cada centímetro do seu rosto como se eu fosse dona do tempo. Repetir seu nome muitas vezes pra você nunca esquecer o timbre da minha voz quando chamo por você. Beijar suas mãos e dedos como se fossem as coisas mais preciosas que já fui capaz de tocar. Abraçar você com toda a força que os átomos dos nossos corpos físicos são capazes de aguentar. Te dar um cheiro no cangote.

Olhar você por muito tempo pra te decorar. Passear com as mãos por cada milímetro do seu corpo, contornando suas pintas com as pontas dos dedos. Morder você de brincadeira. Beijar você como se nunca tivesse sido machucada por palavras que saíram da sua boca antes e muitas vezes. Respirar seu hálito. Deixar seu toque arrepiar minha pele sem lembrar da dor que ele é capaz de causar. Correr até você e te abraçar. Dividir um café pra te beijar com esse sabor.

Te contar muitas coisas. Contar. Tantas. Coisas. Te dizer frases soltas em francês. Ouvir sua respiração densa enquanto dorme. Beijar seu pescoço enquanto sinto o cheiro de amaciante da sua camisa. Te dizer que eu te amo muito muito muito muito e isso é a coisa que eu mais odeio em mim. Não ligar nunca mais. Morrer na sua memória pra não sentir você pensando em mim com tanta frequência, a 640 quilômetros de distância, normalmente na madrugada. Esticar a alma pra te perdoar.

Caber entre você e o volante do seu carro confortavelmente pra te beijar, como se, diante do caos instaurado no mundo, essa fosse a única coisa capaz de nos salvar. Te salvar. Me salvar. Ter raiva de você por ser covarde. Não me acovardar diante do amor. Nunca mais voltar pra esse espaço apertado e mesquinho que você ousou me oferecer, mesmo quando quiser muito me aninhar em você. Escrever um livro. Salvar uma vida além da sua.

O corpo bonito

O corpo bonito
Dos olhos fechados
Pele íntegra
Balbuciava a dor sem a dizer

Corpo bonito
Dos olhos fechados
Não sei se me ouvia
Nunca vou saber

Corpo bonito
Preso ao leito sem querer
O cheiro mesmo de corpo
Igual a todos os outros
Que a gente finge não ter


O corpo bonito
Pesando no leito, com a dor de existir
De dentes faltando
Da boca comida por dentro
Por vermes felizes

O corpo bonito
Ainda vivo
Brincando com a morte
Sem se mexer

A matéria escumalha
Feito a minha e a sua
Em volta do corpo, sem poder se limpar  

O corpo bonito
Para o qual eu cantava
Pra ser menos triste entender tudo isso
Sem saber explicar