O seu jeito de dizer “eu te amo”

Conheceram-se no inverno, era meio de agosto. Heitor foi convidado para uma festa de despedida de um dos colegas do trabalho que fora transferido para a Bélgica e partiria em breve. Elisa também foi convidada. Fazia freelas como fotógrafa em festas de conhecidos, o valor da bolsa do Mestrado não cobria totalmente seus gastos. Fez algumas fotos de Heitor e Débora, sua esposa. Entregou um cartão de contato e continuou os registros. Encontrou Heitor alguns minutos depois, enquanto pegavam bebida. Transaram no lavabo do segundo andar. Desde então, nunca pararam de se encontrar. Elisa era treze anos mais nova que Heitor, veio da Capital cursar Mestrado em História do Jornalismo no interior. Retornaria assim que defendesse sua tese. Passaria incólume a olhares lascivos,  não fosse um sorriso de dentes grandes e sua altura, um pouco acima da média das demais mulheres. Usava o cabelo preto e curto, à altura do ombro, com a franja quase sempre bagunçada. Poderia ser descrita como espirituosa. Heitor visitava Elisa em seu apartamento com frequência. Religiosamente aos domingos, em que usava a desculpa de participar do grupo de ciclismo para passar o dia todo fora e, às vezes às quartas ou quintas, usando como desculpa reuniões de trabalho.

Era recebido sempre com uma discreta efusividade, subiam as escadas já aos beijos. Nem sempre transavam. Mantinham essa relação secreta há quase três anos, conquanto não eram infelizes. Elisa terminaria em breve o Mestrado, retornaria para a Capital e já havia recebido duas ou três propostas de emprego. Nenhum grande problema financeiro, nenhum relacionamento traumático. Tinha o check-list da felicidade quase que completo. Heitor era profissionalmente realizado e sustentava um casamento feliz. Viajava regularmente com a esposa, tinham boas conversas, o sexo era bom, as coisas eram boas. Aconteceu que, com Elisa, ele tivera os diálogos mais profundos e extensos da sua vida. O sexo mais intenso. Não o mais gostoso, mas com certeza o mais intenso. Conversavam por horas, enquanto Heitor preparava o almoço ou o jantar.  Elisa não cozinhava tão bem quanto ele,  então detinha-se a arrumar os pratos e lavar a louça enquanto refutava de forma muito embasada qualquer argumento do qual discordasse. Heitor quase sempre cedia, muitas vezes porque ela realmente estava certa e outras, porque queria transar em vez de conversar. Falavam de filmes e dos países que Heitor já conhecia e Elisa ainda não. Comiam frutas enquanto dançavam jazz descalços na sala. Faziam amor na cadeira. No sofá. Em pé, ao lado da porta. Dormiam um sono pesado. Às vezes Elisa não dormia, apenas observava a respiração do cúmplice, densa, sonora. Sentia como se realmente existisse algo no mundo que pudesse considerar valioso, importante. Às vezes quem fazia isso era Heitor. Passava os dedos contornando os traços do rosto dela. Parada assim, como quase nunca ficava, respirando tão densamente, poderia ser um quadro de Vemeer — ele pensava. Nunca diria isso. Ela discordaria. Gostaria de ser comparada com um quadro de Klimt, intenso, vivo.

Heitor não tinha vontade de reclamar de coisas como a burocracia infernal dos bancos e o baixo retorno das aplicações. Essas coisas pareciam muitíssimo insignificantes diante das outras coisas que poderia dizer a ela. A vida nesse curto espaço de tempo mostrava-se grandiloquente. Urgente. Sanguínea. Elisa perguntava o que Heitor pensava de Philip Roth e se, não obtivesse o que gostaria de ouvir  como resposta (porque Elisa sabia-se como dona da razão, de um jeito não esnobe — gostaria de dizer), começava a explicar, com seus grandes dentes à mostra, toda a influência e qualidade judia inerente ao romancista. Tinha um sorriso de quem é dona do mundo.  Articulava as mãos e mexia seus dedos finos enquanto usava palavras como” corroboram”,  ” conseguinte”, “especificidades”.  Falava mesmo com a boca cheia de frutas — signo gêmeos —, o que obrigava Heitor a beijá-la no meio de uma frase. Sentavam-se um no colo do outro, deitavam no tapete da sala. Pareciam um grande emaranhado de mãos, pernas, cabelos, teorias existencialistas, discussões exaustivas sobre neoliberalismo, sexo barulhento com tapas e mordidas. Carinho silencioso com o corpos tesos e quentes. Elisa não queria nada. Não desejava que Heitor a amasse de forma diferente do que ele fazia, nem que terminasse o casamento, nem que vivesse com ela. Não desejava conhecer o mundo com ele, mas gostaria de conhecer o mundo sozinha. E voltar para esse lugar em que poderia narrar todas as suas histórias, com a boca cheia de frutas, enquanto ele passaria suas mãos grandes nos seus joelhos e coxas. Esse lugar que era uma pessoa.
Hoje haviam bebido vinho na mesma taça, riram suas risadas feias, falaram palavrões. Discutiram os becos intelectuais das religiões, ficaram em silêncio apreciando a companhia um do outro. Heitor trouxe um bloco de papel com gramatura para as pinturas de Elisa. Ele aprendeu a comprar papéis. Ela aprendeu a cozinhar. Pintaram desenhos feios juntos. Fizeram amor. O domingo precisava acabar, despediram-se. Heitor esqueceu o relógio no braço do sofá, Elisa voltou ao apartamento para buscar. Atravessou a rua mais distraída do que o acaso costuma tolerar.

O som maciço da lataria encontrando o corpo magro de Elisa é que pareceu a ter matado. Heitor, que não sabia pensar nem sentir, lembrou o quanto barulhos altos a incomodavam. Ela morreu de susto com esse barulho — concluiu. O Sol parecia mais forte do que em qualquer outro dia. Estava ajoelhado no asfalto quente mas não sentia sua pele derreter. Era primavera e a rua parecia um tapete gigantesco de flores amarelas. Eram as flores dos ipês. O relógio eletrônico que ficava no cruzamento alternava entre o horário e a temperatura, 31°C. Elisa tinha o cabelo preto e liso grudado no suor e no sangue em sua testa e pescoço. Um tanto de flores sujas e amassadas colavam no sangue em volta do corpo quase sem cor.
Heitor passou os braços por baixo dos ombros dela, tirando as flores de ipê e beijando sua têmpora com cuidado. Ainda com um gosto de ferro na língua, sussurrou no ouvido de Elisa ” Você parece um quadro de Klimt “.

Feliz como era…

Como há de ser feliz agora
Sob a terra?
Se os olhos não vêem mais a cor do batom no espelho
Vermelho
Se as luzes não refletem mais o brilho dos anéis
todos em seus dedos

Como há de ser feliz agora
Se não sente calor nem frio
Se o corpo que é matéria  não transita
Nem abraça
Não adoece nem se cura
Decompõe

Como há de ficar triste agora
Se escolhi seu batom preferido
E o relógio que sempre usara
E o seu corpo será pra sempre esse
Jovem e feliz

Como há de ficar triste agora
Se cuidei de trazer meias
E as flores que mais gosta
Se fiz tudo o que sabia pra te agradar

Não fique triste agora
Nenhuma agulha te rasga a pele
Nenhum tubo te atravessa
Você pode descansar

Bonnie & Clyde

Em vez de fazer coisas e sorrir, escrever, correr pelas ruas dessa cidade em que todos os dias são domingo, dançar, cozinhar, grifar com outras cores livros velhos em partes já grifadas, ligar pra sua mãe, assistir Bonnie e Clyde mais uma (décima oitava) vez, esfregar os azulejos do banheiro até que o cheiro da água sanitária impregnasse o sistema nervoso central, repassar o diagrama de Wiggers, estudar o sistema renal, marcar coisas na agenda, limitava-se a chorar. Tinha a companhia de uma insatisfação, eventualmente, que era quase uma pessoa. Tivesse olhos, seriam pretos feito jabuticabas e a pele seria translúcida, gélida. Tivesse boca, sorriria intimamente e ironicamente como se guardasse um segredo. Nos dias ruins era sacudida pelos próprios soluços e secava as têmporas com as costas das mãos, inutilmente.

Lembrava de (ter podido) olhar os poros abertos no rosto dele, que, de pertinho, pareciam pequenas crateras. Lembrava de poder antes tocá-las. E chorava. Não porque sentia fome de tocar a pele dele novamente, mas também porque sentia. Não porque pensava que, por ele, seria capaz de ignorar o fato de que amar alguém é uma construção social articulada para manutenção do sistema econômico através do ideal de amor romântico, mas também porque pensava. Chorava mais pela guerra insaciável no Oriente Médio e indisponibilidade governamental para lidar com as mães em situação de rua e seus filhos. Quando parava de soluçar, mantinha os olhos ressumados pelos dramas com muitos diálogos que exploram a condição humana, orbitando em sua mente.

E nos dias em que fazia coisas e sorria, escrevia, corria pelas ruas dessa cidade em que todos os dias são domingo, dançava, cozinhava, grifava com outras cores livros velhos em partes já grifadas, ligava pra sua mãe, assistia Bonnie e Clyde mais uma (décima nona) vez, esfregava os azulejos do banheiro até que o cheiro da água sanitária impregnasse o sistema nervoso central, repassava o diagrama de Wiggers, estudava o sistema renal, marcava coisas na agenda, esticava-se no sofá, repetia frases soltas em francês, sentia a luz do sol que entrava pela sacada tocando sua pele, comprava frutas no mercado, bebia água, não limitava-se a nada.

Via da janela a cidade crescendo, brindando com fel a beleza das faces pálidas, olhava as luzes. Entendia que viver também é isso. E chorava. Não porque se sentia imensamente feliz  por correr pelas ruas dessa cidade em que todos os dias são domingo e voltar pra casa com o corpo quente e vivo, mas também porque se sentia. Chorava de feliz porque lembrava de (ter podido) olhar os poros abertos no rosto dele, que, de pertinho, pareciam pequenas crateras. Lembrava de poder antes tocá-las. E secava as têmporas com as pontas dos dedos que um dia passearam pelos poros abertos no rosto dele, que…

 


“ Você tem estado dentro de mim, desde então, de formas que podem ser eroticamente descritas ou metaforicamente descritas. Essa é uma delas.”

Je te remercie, la vie

A Lua em Netuno me deixa em paz na minha superficialidade. Não propõe reflexões paradoxais profundas. Não condena as minhas leituras fúteis, como Ottessa Moshfegh, enquanto o mundo colapsa mais rapidamente do que o previsto, antes do planejado. A Lua em Netuno tira o foco do amor romântico e deixa que amemos o produto do amor, a arte. E então, é possível, muito mais facilmente do que quando a Lua está em Vênus, descrever a arte não sôfrega. É possível dizer, portanto, sem nenhum julgamento, o quanto foi imensamente prazeroso comprar duas garrafas de vinho muito barato no mercado e bebê-las sozinha —  porque é como fazemos as coisas agora —, a primeira na taça, a segunda direto da botelha, o quê me levou até aquele ponto exato em que nos sentimos levemente felizes apesar de. A Lua em Netuno permite essa felicidade fulgaz, idiota. O final de uma segunda garrafa de vinho barato quando a Lua está em Netuno faz a gente acreditar numa sensualidade cinematográfica. Eu dancei Imported muitas vezes. Sem coreografia. Sentia a música passando pela minha corrente sanguínea. O meu cabelo, que agora parece ter crescido mais do que o normal nos últimos dias, colava no suor do meu pescoço e na testa. Eu tinha hálito de vinho e  o meu último banho exalava pelos poros. Evaporava. Fiquei excitada comigo. Me masturbei no sofá, só a luz das janelas vizinhas quebravam a penumbra da sala. Gozei duas vezes. Talvez eu tenha pensado em algo relevante alguns segundos antes de mergulhar no subconsciente. Acho que agradeci por estar disposta, quando a Lua se alinhar em outras quadraturas, a ser incomodada pelo sofrimento alheio.

Todas as coisas que eu precisava fazer de novo ou nunca mais

Cheirar seu cabelo como se fosse a última porção de oxigênio disponível. Beijar seus olhos, sentir seu cílios claros encostando nos meus lábios. Beijar cada centímetro do seu rosto como se eu fosse dona do tempo. Repetir seu nome muitas vezes pra você nunca esquecer o timbre da minha voz quando chamo por você. Beijar suas mãos e dedos como se fossem as coisas mais preciosas que já fui capaz de tocar. Abraçar você com toda a força que os átomos dos nossos corpos físicos são capazes de aguentar. Te dar um cheiro no cangote.

Olhar você por muito tempo pra te decorar. Passear com as mãos por cada milímetro do seu corpo, contornando suas pintas com as pontas dos dedos. Morder você de brincadeira. Beijar você como se nunca tivesse sido machucada por palavras que saíram da sua boca antes e muitas vezes. Respirar seu hálito. Deixar seu toque arrepiar minha pele sem lembrar da dor que ele é capaz de causar. Correr até você e te abraçar. Dividir um café pra te beijar com esse sabor.

Te contar muitas coisas. Contar. Tantas. Coisas. Te dizer frases soltas em francês. Ouvir sua respiração densa enquanto dorme. Beijar seu pescoço enquanto sinto o cheiro de amaciante da sua camisa. Te dizer que eu te amo muito muito muito muito e isso é a coisa que eu mais odeio em mim. Não ligar nunca mais. Morrer na sua memória pra não sentir você pensando em mim com tanta frequência, a 640 quilômetros de distância, normalmente na madrugada. Esticar a alma pra te perdoar.

Caber entre você e o volante do seu carro confortavelmente pra te beijar, como se, diante do caos instaurado no mundo, essa fosse a única coisa capaz de nos salvar. Te salvar. Me salvar. Ter raiva de você por ser covarde. Não me acovardar diante do amor. Nunca mais voltar pra esse espaço apertado e mesquinho que você ousou me oferecer, mesmo quando quiser muito me aninhar em você. Escrever um livro. Salvar uma vida além da sua.

O corpo bonito

O corpo bonito
Dos olhos fechados
Pele íntegra
Balbuciava a dor sem a dizer

Corpo bonito
Dos olhos fechados
Não sei se me ouvia
Nunca vou saber

Corpo bonito
Preso ao leito sem querer
O cheiro mesmo de corpo
Igual a todos os outros
Que a gente finge não ter


O corpo bonito
Pesando no leito, com a dor de existir
De dentes faltando
Da boca comida por dentro
Por vermes felizes

O corpo bonito
Ainda vivo
Brincando com a morte
Sem se mexer

A matéria escumalha
Feito a minha e a sua
Em volta do corpo, sem poder se limpar  

O corpo bonito
Para o qual eu cantava
Pra ser menos triste entender tudo isso
Sem saber explicar

Le voisin [+18] – Final

Digamos que eu não sou uma mulher que espera as coisas acontecerem por si só. Fiquei imaginando em que situação eu o poderia encontrar novamente e como eu faria pra que ele notasse o meu interesse libidinoso. 

Dois dias depois de termos conversado na porta, estivemos juntos no elevador novamente. Senti um nervosismo atípico, uma taquicardia. Ensaiei mentalmente um diálogo e, na minha imaginação, em poucos segundos estaríamos nos agarrando no elevador e eu tiraria sua farda ali mesmo, na frente das câmeras. Fiquei em silêncio. Um pouco antes de chegarmos ao andar, ele deu um meio sorriso, as mãos no bolso, os olhos fixos na porta do elevador, você não  me mandou mensagem – disse como se soubesse que observei sua porta naquele dia, como se soubesse o que eu estava pensando alguns segundos antes. Eu sorri – não quis parecer desesperada por você, embora estivesse. 

Antes que pudesse voltar às minhas fantasias, senti uma de suas mãos passando pela minha nuca, por baixo do meu cabelo. Em um único movimento ele me puxou pra muito perto e me beijou como se eu tivesse pedido. 

Um tipo de transe tomou conta de mim, sua língua quente procurava a minha e o que me mantinha em pé eram suas mãos dando aporte ao meu corpo entregue. Com uma mão enfiada no meu cabelo e a outra espalmada em minhas costas, por baixo da blusa, ele alternava os beijos com mordidas, passava a barba no meu pescoço. Bom, depois desse momento eu não seria capaz de negar nada. Já podia sentir o pau dele, muito duro, encostando na minha coxa. Eu já estava molhada muito antes de ele colocar as mãos em mim, no elevador. 

O vizinho é um homem de porte grande, não precisou de muito esforço pra me conduzir até sua porta e – antes de abri-la – enfiar os dedos por dentro do meu jeans. Soltei um gemido, ali mesmo no corredor. Ele encostou uma das mãos com firmeza na minha boca – shhh, vamos entrar. 

Tinha algo nele, não sei se a voz de comando, não sei se o jeito como parecia faminto, ou a forma como me movimentava facilmente pela casa, que me fazia querer ficar. Não me lembro de ter dito nada. Desabotoou minha blusa, abaixou minha calça enquanto lambia e mordia minhas coxas e, ainda de farda, me mandou ajoelhar. Chegou muito perto de mim e enquanto meu o meu coração batia arrítmico, mantive os olhos nele. Abriu a calça na minha cara e eu senti o seu pau pressionando minha bochecha, minha boca cheia d’água. Como que por instinto o enfiei na minha boca. Me mandou colocar as mãos pra trás. Obedeci. Podia sentir seu corpo tendo pequenos espasmos, enquanto eu passava a língua na cabeça do seu pau, o provocando. Eu não estava me aguentando de tesão, mesmo com o seu pau inteiro na minha boca, eu continuava me projetando para frente e os gemidos dele me davam vontade de não parar nunca. Me levantou pelo cabelo e me deu um tapa na bunda antes de me colocar de quatro pra ele. Me sentia tomada por um tesão insano. Tinha maturado essa cena algumas vezes na minha cabeça. A ideia da farda e do controle que o vizinho exercia sobre mim me escorria entre as pernas. Literalmente. 

O apartamento estava em silêncio, mas parecia que o sangue circulando muito rapidamente pelo meu corpo era trilha sonora da cena. Era um silêncio de calor. Ele passava os dedos em mim e me fazia sentir seu pau passando pela minha bunda. Era um desejo desesperador. Antropofágico. Me fez pedir por ele. Ele me fez pedir. 

Perdi as contas de quantas vezes quase gozei. Alternava os movimentos e passava os dedos em mim pra me provocar, enfiava os dedos na minha boca e me enforcava enquanto me comia. Me concentrei pra não me entregar ao orgasmo, porque não queria que acabasse nunca. Queria continuar sentindo o calor que emanava da pele dele em mim. 

Com uma das mãos, manteve meus punhos unidos acima da minha cabeça, como uma algema. Ele estava por cima de mim. Metia com tanta força que me faltava o ar. Mais tesão do que sentir ele se movimentando dentro de mim era o olhar dele fixo, observando minhas expressões e os seus dedos grossos, entre os meus gemidos, sendo enfiados na minha boca 

Eu sabia exatamente o que estava acontecendo. Eu sabia que o seu hipotálamo estava a recebendo os estímulos de toque e transformando em noradrenalina. E que tudo acontecia simultaneamente em mim. E mesmo assim, tudo parecia muito mais simples e as frases obscenas que ele me dizia eram muito mais interessantes naquela hora. 

O vizinho adorava ser obedecido. Depois de levar alguns tapas e começar a sentir a minha pele queimar no exato formato das suas mãos, fui pega pelos pés. Me puxou para que eu ficasse deitada e de frente pra ele. Colocou três dedos dentro de mim, um de cada vez. Ele me olhava atentamente a cada dedo que enfiava. Observava meu corpo se contorcendo. Era impossível não gemer. Diante do menor som que eu emitia, recebia um olhar de reprovação e uma ordem em tom firme e sóbrio: cala a boca. Eu tentava obedecer, mas era incapaz e isso triplicava meu tesão. Sentia um desejo quase que antropofágico. 

Me colocou de joelhos novamente e segurava minha cabeça com muita força, de um jeito que eu não conseguiria me desvencilhar – não que quisesse. Mesmo sem ar fazia questão de engolir o pau dele por inteiro, ficava orgulhosa de mim pelo feito e sua boca semiaberta num gemido me davam aval pra continuar. Senti seu gozo quente e grosso enchendo minha boca, olhando pra ele satisfeita. 

Me fez um carinho no rosto, me levantou do chão. Pediu para que eu me vestisse e saísse porque ele estava de plantão, mas mandou eu deixar minha porta aberta pois ele viria mais tarde, para terminar o que começou. 

Ligação

Amanhã vou te ligar para contar que quase te esqueci. Eu vou ligar falante, feliz  — bem como sou — dizendo que agora eu rio contando as minhas próprias costelas de frente para o espelho. Eu corri tanto que moro nesse corpo magro que você nunca tocou. Corri do espaço vazio que você deixou. Que seja.

Vou me gabar porque já cozinho razoavelmente bem e troco chuveiros e faço compras. Eu já arrisco umas frases em francês, porque precisei de outro idioma para as coisas que não pude dizer. Vou fazer você me ouvir. Parlant.

Vou dizer que ainda não te esqueci por completo e que o som da sua voz ainda me dói e faz minha carne tremer (não sei um jeito bonito de dizer isso, por ora), mas me agarro na certeza de que vai ser de repente. Vai ser num desses dias de folga, em que danço só de calcinha pela casa e aí, eu simplesmente não vou lembrar. Ou num domingo caminhando pela Paulista, olhando os livros expostos na calçada, cantando Caetano com o Bolero Freak — aos berros. Eu não vou lembrar. Nem do seu cheiro, nem de como as suas mãos grandes sobre as minhas me fizeram sentir segura e nem de como o som do seu riso deixava meu coração quente.

Vai ser num desses dias de fazer mercado, olhando as prateleiras, passando por qualquer uma coisa das quais você gosta(va) de comer e eu não vou lembrar. Ou na fila do banco. Vai ser quando o seu nome não significar mais nada e quase ninguém vai se chamar você, ou quando eu terminar esse rascunho. Vai ser quando eu me formar e não quiser te contar, nem ouvir suas felicitações. Quando eu não quiser dividir nada com você, nem medos, nem conquistas. Você não pode mais se orgulhar de mim (isso desde já, antes de eu te esquecer todo). Quando algo ruim acontecer e o seu número não for o contato de emergência. Bem, você não estará mais nos meus contatos.

Não vou perceber quando te esquecer por completo. Alguém vai perguntar sobre você e eu vou responder “eu não sei”, sem lágrima, nem drama. Simplesmente não vou saber. E o seu fim em mim vai ser assim, morno. Silencioso. Diferente de tudo que te ofereci. Eu vou ser outra, porque o tempo transforma tudo e os seus pedidos de desculpas estarão vencidos. É uma pena que você não possa mais me conhecer. Você perdeu de vista a minha melhor versão.

Le voisin [+18] – Parte I

Nas últimas semanas fui pega pela máxima de viver em um condomínio: um vizinho barulhento. Nenhum dia de paz nesse apartamento.

Ele não mora no prédio há muito tempo, alguns meses, eu diria. O encontrei algumas vezes no elevador, levando o lixo ou saindo com a cachorra para passear, uma vez voltando do trabalho, fardado… Confesso que antes de vê-lo vestindo a farda nunca o tinha observado. Os segundos juntos no elevador e aquela massa constrangedora de silêncio depois de um “ boa noite” tímido e cordial me possibilitaram um olhar mais atento ao tamanho das suas mãos, à sua pele negra não retinta, aos ombros largos.

O fato de ele ser um homem bonito e aparentemente muito educado não fez com que o barulho que vinha de seu apartamento fosse menos incômodo. Era como se ele deixasse alguma porta aberta, que sempre batia. Sempre quando o barulho começava, eu interfonava para ele e nunca havia ninguém. Há de ser a cachorra – pensei comigo.

No último final de semana, precisei fazer revisão de vários artigos e materiais para o início do semestre. Não conseguia me concentrar nem por um minuto com o barulho do 73. Gravei um vídeo, fui até porta dele, onde o barulho era muito mais alto, ecoando pelo corredor. Continuei gravando por alguns minutos. Enviaria para o síndico e imploraria por uma solução.

Alguns dias após a gravação, encontrei meu vizinho-problema  no elevador. Eu estava com algumas compras, ofereceu ajuda, aceitei. Tomei liberdade pra perguntar do barulho. Quando chegamos no corredor, peguei o celular para mostrar o vídeo recém-gravado. A prova do crime. Peguei as compras e pedi pra ele assistir enquanto eu abria a minha porta. Ele ouviu atento  o som, constatou que só poderia ser a cachorra mas não saberia dizer o que ela estava fazendo. Passou para a próxima foto. Por um segundo eu não soube o que fazer. Eu enviei uma foto comprometedora na noite anterior, e ele a havia visto. Não dava para ver meu rosto, só a a calcinha vermelha de renda minúscula e uma parte do meu cabelo. Ele encarou a foto por alguns segundos, rapidamente se desculpou e me entregou o celular.

Pediu para que eu anotasse o número dele, caso precisasse de algo. Vizinho, eu salvei. Me desejou uma boa noite. Demos um beijo no rosto um do outro de um jeito meio desajeitado. Ele entrou. Fiquei observando a porta por alguns segundos antes de entrar, pensando que talvez nós merecêssemos mais tempo pra conversar…

Eu & Nós

Eu e nós rindo de tudo. Eu e nós dormindo na melhor conchinha, que é de três. Eu e nós tentando qualquer coisa que parece muito possível para mim, mas visivelmente insustentável para todas as outras pessoas do mundo – que nunca viram o quanto ficamos incrivelmente lindos juntos (isso vocês não podem negar).

Eu me exaltando em qualquer fala política enquanto um de vocês me acalma e o outro ri da minha ingenuidade por pensar que qualquer coisa dita bravamente muda o mundo.

Um de vocês segurando minha mão enquanto caminhamos até o cinema. Outro de vocês segurando a outra. Dois de vocês me olhando atentamente enquanto choro – de forma não comedida, tal como sou – no meio do filme de ação do ano.

Eu e nós fazendo planos.

Eu e nós com a barriga doendo de rir no meio da tarde de um dos domingos últimos. Eu contando uns segredos.

Dois de nós ouvindo atentamente um de vocês falar com propriedade sobre o cultivo das trufas e o quanto isso as torna especiais. Elas precisam de tempo.

Deveria ter contado antes que o objeto de desejo de um escritor ganha relicários sem pedir e que nunca é possível escrever muito sobre um mesmo amor.

Deveria ter contado que se eu não precisasse escrever, não viveria nenhum desses amores que me roubam o ar. Só vou até eles porque precisam ser escritos. Vocês dois precisavam ser escritos. Transcritos em cheiro, voz, calor. Cada um a seu modo.

Você com essa doçura de fada, fazendo tudo o que é doce te lembrar. Uma fada feita de leite e mel. E amor. 

Você com essa leveza e paciência pra vida, certo de poder segurar o mundo nas mãos. E podendo.

E o quanto um de vocês me fazia sentir a pessoa mais engraçada do mundo e o quanto um outro de vocês me fazia sentir a pessoa mais segura. E o quanto os dois juntos me fizeram sentir ridiculamente apaixonada.

Sem saber o que dizer, só posso sair delicadamente, como cheguei, e contar o que aprendi: vida é brincar de não desistir e ter paciência, porque tudo o que é valioso precisa de tempo.

Embora tenha feito uso adequado dos pronomes na escrita, sempre quis estar no nós.